sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Apenas 5% dos municípios com presença de imigrantes e refugiados no Brasil oferecem serviços de apoio, aponta IBGE


Na grande maioria das cidades brasileiras não há nenhum tipo de instrumento para auxílio a estrangeiros que buscam refúgio no país. Entre 2010 e 2018, estima-se que cerca de 500 mil imigrantes deram entrada no país.


Por Daniel Silveira, G1 — Rio de Janeiro

25/09/2019 10h01 Atualizado há um ano




Venezuelanos entram no Brasil pela cidade de Pacaraima — Foto: Emily Costa/G1 RR



Um levantamento inédito realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela a baixa oferta de apoio governamental a imigrantes e refugiados que buscam asilo no Brasil. A pesquisa, divulgada nesta quarta-feira (25), mostra que apenas 215 cidades oferecem algum tipo de serviço específico para essa população.


Ao apresentar a pesquisa, o IBGE lembrou que “as migrações internacionais são parte constituinte da formação histórica e social do Brasil” e que, nos últimos anos, ganhou outro perfil. Diferente do que aconteceu na época do Brasil Império e na primeira metade do século 20, quando milhões de estrangeiros vieram ao país, entre 1980 e o final dos anos 2000, mais pessoas saíram do que entraram. Muitos brasileiros emigraram para os Estados Unidos, Japão, Portugal, Espanha e Reino Unido, entre outros.


A chegada de migrantes ao território brasileiro voltou a ocorrer de forma intensa a partir do final da primeira década do ano 2000 influenciada, conforme pontuou o IBGE, pelas crises político-econômica e climática no Haiti, mudanças na economia da China, estreitamento de laços com países africanos, o conflito na Síria e, mais recentemente, a profunda crise econômica da Venezuela.


De acordo com o IBGE, dados da Polícia Federal indicam que há presença de imigrantes e/ou refugiados em 3.876 dos 5.568 municípios brasileiros. Entre 2010 e 2018, foram registrados mais de 466 mil migrantes no país, além de 116,4 mil pedidos de refúgio.




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Registros de imigrantes no Brasil
Número de registros de entrada de migrantes, entre 2010 e 2018, nos principais municípios com fluxo migratório.
183.608183.60880.88780.88722.79122.79121.62721.62718.16918.16915.50615.50614.15014.15014.15014.15013.04513.04512.11612.11611.23111.23110.74210.74210.20410.2048.0368.0366.1446.144São Paulo (SP)Rio de Janeiro (RJ)Boa Vista (RR)Brasília (DF)Curitiba (PR)Manaus (AM)Macaé (RJ)Porto Alegre (RS)Florianópolis (SC)Belo Horizonte (MG)Salvador (BA)Foz do Iguaçu (PR)Campinas (SP)Recife (PE)Pacaraima (RR)0100k200k25k50k75k125k150k175k

Campinas (SP)
10.204

Fonte: Polícia Federal

“Os migrantes recentes [...], em geral, possuem nível médio de escolaridade, se inserem nos estratos inferiores da estrutura ocupacional, não dominam outro idioma além do nativo e chegam em situação de maior vulnerabilidade social e econômica, o que os faz demandarem políticas públicas de acolhimento e integração à sociedade brasileira”, enfatizou o IBGE.


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Diante disso, a pesquisa buscou investigar o acolhimento aos imigrantes previsto na nova Lei de Migração, promulgada em maio de 2017. De modo geral, o IBGE constatou fragilidade na execução desta política.



“Deficiências são observadas, como, por exemplo, no ensino do idioma, requisito prioritário como porta de acesso à plena integração; no acesso aos serviços sociais públicos; na inserção ocupacional, que via de regra está aquém das habilidades e qualificações; e na garantia à moradia adequada, entre outras limitações”, apontou a pesquisa.


Dentre as 3.876 cidades onde há presença de imigrantes, apenas 215 (5,5% delas) contavam com pelo menos um serviço de apoio previsto na política migratória do país – associação ou coletivo para relacionamento com o poder público, curso de português, atendimento multilíngue nos serviços públicos, abrigo para acolhimento, centro de referência e apoio, formação/capacitação profissional.

Oferta de serviços a imigrantes e refugiados
Número de municípios com oferta de serviços, por tipo de serviço
818148482525585863634747Associação e/ou col…Curso permanente …Atendimento multil…Abrigo para o acolhi…Centro de Referênci…Formação/capacitaç…0100255075
Fonte: IBGE


Associação de imigrantes


O IBGE destacou que um dos principais instrumentos para integração de imigrantes e refugiados é a associação ou coletivo desse grupo, devido à sua capilaridade para articulação com o poder público. Eles estão presentes em apenas 81 cidades onde há presença de imigrantes ou refugiados.


“Como os migrantes e refugiados não têm direito à participação política, quer dizer, votar ou ser votado em eleições proporcionais ou majoritárias, a organização em associações ou coletivos é o espaço do exercício democrático junto às instâncias de poder”.


A pesquisa chamou a atenção para a distribuição espacial destas associações e/ou coletivos, que se concentram, sobretudo, na região Sul do país. Dos 81, 44 estão na Região Sul. O Sudeste sedia 23, o Centro-Oeste, seis, o Nordeste, cinco, e o Norte, apenas três. Dentre as capitais que têm volume significativa de população migrante e/ou refugiada, o IBGE destacou que:


São Paulo - embora mantenha programa de formação e capacitação de servidores voltado ao atendimento de imigrantes/pessoas em situação de refúgio ou asilo humanitário, ainda não implantou o atendimento multilíngue;
Rio de Janeiro - tem relacionamento com as associações ou coletivos de imigrantes/pessoas em situação de refúgio ou asilo humanitário, além de oferecer cursos de idioma;
Brasília - só oferece abrigo;
Boa Vista - promove a cooperação com a União, oferece abrigo e mantém um Centro de Referência e Apoio a Imigrantes.


Mecanismos de cooperação


Conforme enfatizou o IBGE, a gestão migratória deve ser de responsabilidade das três esferas de poder, através de mecanismos de cooperação, com o ente federal gerindo as entradas/saídas, a regularização/regulação dos migrantes/refugiados e a cooperação internacional. Já a oferta de serviços, como o ensino do idioma, a geração de trabalho e renda, a oferta de moradia, devido à proximidade, deve ser ditada pelos estados e municípios, mas com suporte federal.


Das 27 unidades da federação do país, nove não possuem nenhum tipo de mecanismo de cooperação na gestão migratória. São elas Rondônia, Amapá, Tocantins, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Alagoas, Mato Grosso e Distrito Federal. “Neles, é importante ressaltar, a presença de migrantes/refugiados é diminuta”, ponderou o IBGE.


Em nível municipal, são apenas 75 os municípios, concentrados nas Regiões Sul e Sudeste, que possuem instrumentos de cooperação. Em 53 deles, a cooperação é feita com o estado, em 43, com a União, e 21 estabelecidos com os dois entes federados.


“Epitaciolândia, Manaus, Presidente Figueiredo, Boa Vista, Normandia e Pacaraima, localizados na Região Norte e que, recentemente, receberam correntes migratórias oriundas do Haiti e da Venezuela, estabeleceram cooperação ao menos com um ente federado”, ressaltou o IBGE

Curso de português para imigrantes e refugiados


Apenas 48 municípios, distribuídos em 11 das 27 unidades da federação, oferecem ensino de português a migrantes e refugiados, apontou o levantamento do IBGE. A maioria destas cidades se concentram em Santa Catarina quando, segundo a pesquisa, “a população de migrantes/ refugiados se concentra nos Estados do Amazonas, Roraima, Rio de Janeiro e São Paulo”.


“Não dominar o idioma do país de destino é um dificultador para além da comunicação cotidiana, pois prejudica o acesso ao mercado de trabalho e aos serviços públicos”, enfatizou o IBGE.


O órgão ressaltou, ainda, que “Unidades da Federação com importante presença de migrantes/refugiados sem a oferta de tais cursos acabam por gerar um complicador na gestão da questão migratória, como é o caso de Roraima”.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Biden nomeará latino para cuidar das políticas de imigração nos EUA



Equipe de transição anunciou outros nomes do 1º escalão em política eterna e segurança nacional COMENTE
Por G1 | Portal Gazetaweb.com 23/11/2020 18h39




Biden nomeará latino para cuidar das políticas de imigração nos EUA
FOTO: CAROLYN KASTER/AP

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O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou nesta segunda-feira (23) que vai nomear Avril Haines para ser diretora nacional de inteligência e Alejandro Mayorkas para chefiar o DHS (Departamento de Segurança Interna, em tradução livre)? a primeira mulher e o primeiro latino-americano a ocuparem os respectivos cargos.

A nomeação de Mayorkas é considerada simbólica porque ele, nascido em Cuba e naturalizado americano, ficará na chefia do departamento responsável pela imigração e pela patrulha de fronteiras. No caso de Haines, a principal atribuição dela será supervisionar os relatórios de inteligência enviados à Casa Branca, em um cargo criado depois dos atentados de 11 de Setembro de 2001.


Veja os nomes anunciados nesta segunda para o gabinete de Biden:

Antony Blinken: ex-vice-secretário de Estado, foi nomeado para servir como secretário de Estado. Anteriormente ocupou cargos de relações exteriores no Capitólio, na Casa Branca e no Departamento de Estado.

Alejandro Mayorkas: ex-secretário adjunto do Departamento de Segurança Interna. Já foi aprovado pelo Senado dos EUA três vezes ao longo de sua carreira. É o primeiro latino e imigrante nomeado como secretário do Departamento de Segurança Interna.

Linda Thomas-Greenfield: embaixadora veterana com 35 anos no serviço de relações exteriores dos EUA. Trabalhou em quatro continentes. Foi indicada para servir como embaixadora dos EUA nas Nações Unidas.

John Kerry: ex-secretário de Estado será o enviado presidencial especial para o Clima e fará parte do Conselho de Segurança Nacional (NSC, na sigla em inglês). Com isso, será a primeira vez que o NSC incluirá um enviado dedicado às mudanças climáticas. Segundo a equipe de Biden, isso reflete o compromisso do presidente eleito de abordar as mudanças climáticas como uma questão urgente de segurança nacional. Kerry se candidatou a presidente em 2004, mas perdeu para o republicano George W. Bush, reeleito naquele ano.

Avril Haines: ex-vice-diretora da CIA e vice-conselheira de Segurança Nacional, será nomeada para atuar como diretora de inteligência nacional. Será a primeira mulher a liderar a comunidade de inteligência americana.

Jake Sullivan: será nomeado conselheiro de Segurança Nacional. É uma das pessoas mais jovens a ocupar essa função em décadas, aos 43 anos.

Segundo o jornal "The New York Times", a equipe reúne altos funcionários do governo Obama e a maioria trabalhou em conjunto no Departamento de Estado e na Casa Branca. Eles compartilham a ideia de política externa do Partido Democrata, que inclui cooperação internacional, fortes alianças e cautela quanto a intervenções estrangeiras após as guerras no Iraque e Afeganistão.

No anúncio, o escritório do presidente eleito disse em comunicado que "esses líderes experientes e testados em crises começarão a trabalhar imediatamente para reconstruir nossas instituições, renovar e reimaginar a liderança americana [...] e enfrentar os desafios definidores de nosso tempo ? de doenças infecciosas a terrorismo, proliferação nuclear, ameaças cibernéticas e mudanças climáticas".

Além desses anúncios oficiais, veículos de imprensa dos EUA como a emissora CNBC afirmam que Trump vai nomear Janet Yellen para o cargo de secretária do Tesouro ? cargo atualmente ocupado por Steve Mnuchin e que é considerado fundamental no esforço do governo em reaquecer a economia após o choque da pandemia do coronavírus.

Yellen tem experiência por ter presidido o Federal Reserve, o banco central americano, entre 2014 e 2018. O cargo de secretária de Tesouro precisa de aprovação pelo Senado, e, se passar, ela será a primeira mulher a ocupar esse posto.

Biden confirma secretário de Estado

A imprensa americana havia divulgado no domingo (22) que Antony Blinken deveria ser indicado para o cargo de secretário de Estado, que é equivalente ao de ministro das Relações Exteriores no Brasil. Ele substituirá Mike Pompeo, o maior braço-direito da política externa do governo de Donald Trump.

A escolha do experiente diplomata é uma decisão que pode marcar o retorno dos EUA ao multilateralismo, após o atual presidente americano ter se afastado dos aliados tradicionais do país.

Blinken, de 58 anos, é um dos principais colaboradores do democrata para política externa e foi o número dois do Departamento de Estado durante o governo de Obama, quando Biden era vice-presidente, e atuou como braço-direito de John Kerry ? agora escolhido para ser o enviado especial para o clima.

O anúncio ocorre 20 dias após a eleição em que Biden derrotou Trump, embora o atual presidente ainda não tenha reconhecido a derrota.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

O que pensam os imigrantes ilegais brasileiros que apoiam Trump


Economia, conservadorismo e estilo durão explicam porque até mesmo brasileiros deportados por Trump o apoiam.
Por Mariana Sanches, BBC

19/10/2020 09h29 Atualizado há 3 semanas




'Se o Trump mandou a gente embora, então a gente vai embora', diz Waldir (na foto com a família) — Foto: Arquivo Pessoal/BBC

Ao pisar no avião que o traria deportado dos Estados Unidos para o Brasil, há 10 meses, o agricultor Waldir Pereira da Silva, de 44 anos, conta que se sentiu aliviado. Pode soar estranho que alívio tenha sido a sensação de alguém que, no momento da decolagem do avião fretado pelo governo americano, viu enterrado seu sonho de reconstruir a vida nos EUA — pelo qual tinha pago R$ 126 mil a um traficante de pessoas, que prometera atravessar não apenas Silva, mas sua mulher Sedneia, de 36, e a filha do casal, Ana, de 14, pela fronteira com o México.

"Só que os americanos nos pegaram e eram tão brutos com a gente. Diziam que eles eram bons, e a gente era bandido, terrorista, querendo fazer mal no país deles. Era tanto sofrimento, que eu fiquei aliviado quando acabou", relatou Silva à BBC News Brasil, enquanto trabalhava em uma lavoura de café, em Alvorada, Rondônia.

Mesmo com pandemia, mais de 7,6 mil brasileiros foram detidos ao tentar entrar ilegalmente nos EUA em 2020

Depois de atravessar o rio Grande entre Ciudad Juarez, no México, e a cidade texana de El Paso, em fevereiro de 2020, não demorou muito para que Silva e a família fossem encontrados pelo serviço de imigração americano. A partir daí, eles passaram 16 dias em um centro de detenção, com muito medo e pouca comida, até engrossarem as fileiras de centenas de brasileiros já deportados sumariamente pelos Estados Unidos, em uma política de expulsão expressa de cidadãos do Brasil iniciada pela gestão de Donald Trump no fim do ano passado.

Silva e sua família sentiram na pele o que é a propalada política de tolerância zero do presidente Donald Trump com migrantes irregulares. Ainda assim, ele não nutre qualquer rejeição pelo comandante por trás do aparato estatal que o impediu de chegar à Carolina do Norte, onde sua rede de contatos lhe prometera que Silva ganharia R$ 80 por hora em serviços gerais, e não por dia, como em Rondônia.

"Eu apoio o Trump. Sempre gostei dele porque ele é uma pessoa rígida, que quer as coisas certas e bem feitas. Cada país tem a sua política e eu não tenho nada que discordar. Se o Trump mandou a gente embora, então a gente vai embora. Acho que o Brasil tinha que ser assim também, o Brasil é muito liberal, qualquer um entra, faz o que quer. O Trump é maneiro, segue princípios bíblicos, é sério, melhorou a economia e fala tudo o que ele pensa na cara mesmo", diz Silva, fiel da igreja evangélica Assembleia de Deus. Ele também é fã de Bolsonaro e da relação do atual presidente brasileiro com o americano. "Meu sogro sempre dizia: a gente tem que se escorar em árvore grande, que dá sombra", explica.

Sem documentos, a favor de Trump



Donald Trump está na reta final da sua campanha por reeleição — Foto: Reuters/BBC

Silva resume de modo simples os motivos pelos quais uma parcela significativa de migrantes brasileiros sem documentos apoia Trump, mesmo que as políticas do americano os mantenham sob risco constante de deportação: uma economia que apresentava pleno emprego até a pandemia de Covid-19 atingir o país, a defesa de uma agenda cristã e conservadora nos costumes e uma imagem de político destemido e durão.

A comunidade brasileira nos EUA é composta por cerca de 1,2 milhão de pessoas, das quais entre 250 mil e 400 mil estão em situação ilegal, segundo estimativa de 2016 do Migration Policy Institute. Embora não haja pesquisas sobre preferência eleitoral dos brasileiros no país para o pleito presidencial atual, existe uma impressão generalizada de que a maior parte da comunidade apoia o democrata Joe Biden, mas que o percentual dos que preferem Trump, tenham ou não documentos, — não é nada desprezível.

Prova disso é o outdoor que adorna atualmente a cidade de Governador Valadares (MG), origem de grande contingente de migrantes brasileiros no país. Ao lado de uma foto de Trump, há os dizeres: "A favor de Deus, a favor da família, a favor da vida, a favor de Israel e a favor do Brasil".

Migrantes indocumentados não votam nas eleições americanas, mas suas convicções políticas têm capacidade de influenciar a comunidade como um todo e o voto de brasileiros com cidadania americana.

A BBC News Brasil entrou em contato com ao menos duas dezenas de indocumentados apoiadores de Trump na última semana, mas a maioria deles não quis falar mesmo em condição de anonimato. Isso porque, além da frágil situação migratória, esse grupo enfrenta também a censura do outro lado da comunidade brasileira, que vê na reeleição de Trump um risco iminente para a manutenção de seu sonho americano.


"Quando eu falo que eu gosto do Trump, o pessoal me chama de racista, mas eu olho pelo lado do governo, quero saber se ele está sabendo trabalhar. E ele está, está funcionando", afirma Leandro*, de 37 anos, que em junho de 2015 entrou nos EUA com um visto de turista e nunca mais foi embora. Hoje ele trabalha em uma agência de remessa de dinheiro ao Brasil em Miami, na Flórida. "É claro que eu sei que Trump não gosta de migrantes, mas tenho a esperança de que depois de fazer a limpa que ele quer, ele vai legalizar quem quer ficar aqui pra trabalhar", diz Leandro.

Prisões, separação de crianças, muro na fronteira

O próprio Trump, no entanto, nunca deu qualquer pista concreta que sustente a esperança de Leandro. Ele se elegeu em 2016, prometendo construir um muro na fronteira com o México e colocar pra fora do país o que chamou de "bad hombres", em uma referência a latinos que vivem sem documentos nos EUA. E embora só em alguns trechos o plano do muro na divisa com o México tenha realmente saído do papel, o republicano, que concorre à reeleição em menos de 20 dias, aumentou o número de detenções e prisões de pessoas indocumentadas durante seu mandato e segue fazendo do assunto uma bandeira política importante.


Sob a gestão de Trump, além da deportação sumária, os brasileiros também passaram a ser submetidos a um protocolo que os impede de esperar pela audiência na Justiça de migração em território americano e os devolve automaticamente ao México.


O muro contra imigrantes vindos do México foi uma das grandes promessas de Trump em 2016 — Foto: Reuters/BBC

Algumas dezenas de crianças brasileiras estavam entre os menores de idade separados de seus pais após entrarem ilegalmente nos EUA, em 2018, em uma medida da gestão Trump considerada cruel até mesmo por políticos do partido do presidente e mais tarde suspensa. E o governo intensificou também ações de fiscalização e prisão de migrantes em empresas conhecidas por empregar mão de obra indocumentada — como frigoríficos — e em cidades com forte presença de comunidades latinas.


O bolso explica

Leandro se considera um "refugiado econômico". Quando diz que o governo Trump "está funcionando", ele se refere à saúde econômica do país. "O giro da economia aumentou muito no governo dele. É difícil ver gente aqui falar: 'eu tô parado'. Índice de desemprego baixíssimo, é isso o que as pessoas querem", afirma o paulistano que deixou o Brasil depois que a agência de turismo em que trabalhava fechou.


Governador Valadares tem outdoor de apoio a Trump — Foto: Divulgação/BBC

Se no Brasil, Leandro conseguia um salário mensal de cerca de R$ 8 mil, em Miami, ele afirma que, fora da pandemia, ganhava U$ 5 mil por mês (algo em torno de R$ 25 mil). Mesmo na atual recessão, afirma tirar mensalmente cerca de US$ 3,5 mil (ou R$ 17 mil), uma renda que não conseguiria no Brasil.

"Ninguém gosta do Trump pessoalmente, mas ele tem uma política econômica muito boa. Ele diminuiu impostos para pequenas empresas e investiu em retomar a industrialização, pra trazer mais empregos pra cá", diz a paranaense Flora, de 25 anos, eleitora de Trump, ressoando argumentos que o próprio republicano não cansa de repetir.


Flora conseguiu se naturalizar nos Estados Unidos há 8 anos, depois que sua mãe se casou com um americano. Já Ricardo*, o irmão mais velho dela, era maior de idade na época do casamento e não teve direito à documentação. Isso não o impediu de se mudar com a mulher e os dois filhos para a pequena cidade de Roselle, em Nova Jersey, onde também mora Flora.

Ali, Ricardo mantém uma empresa de instalações elétricas registrada sob o nome da irmã. Durante a pandemia, o negócio de Ricardo foi socorrido pelo auxílio emergencial dado pelo governo Trump, o que parece ter selado definitivamente a simpatia dos irmãos pelo republicano.


O argumento desses brasileiros é comum a parte dos americanos. Durante a campanha presidencial, embora sempre aparecesse com vantagem na intenção de votos, Biden era considerado pelos eleitores pior do que Trump para lidar com a economia.


De acordo com uma pesquisa da rede CNN feita em maio, 54% dos eleitores acreditavam que Trump teria mais condições de fazer o país crescer, contra 42% dos que acreditavam que Biden fosse o melhor. Essa liderança, no entanto, foi diminuindo gradativamente até desaparecer na última pesquisa, divulgada na primeira semana de outubro: agora o resultado é 50% a 48% a favor de Biden.


Flora diz que sente medo pelo destino do irmão, da cunhada e dos sobrinhos, caso sejam localizados pelos agentes de imigração. Ela teme estar tomando uma "decisão errada" ao apoiar Trump, mas encontra segurança no comportamento do próprio irmão, potencialmente o maior prejudicado pelas políticas do republicano. "Ele é bem mais de direita do que eu, apoia o Trump e gosta do Bolsonaro também", diz Flora.

O mito do bom migrante e o 'self made man'

A realidade da deportação não é algo distante da família. Um amigo paranaense que também mora em Nova Jersey enfrenta há meses um processo migratório que deve resultar em sua expulsão do país. Apesar disso, Flora acredita que o irmão empresário não seria um candidato à deportação.


"Trump não quer nos país apenas quem acabou de chegar ou quem tem ficha criminal. Se a pessoa está aqui pra contribuir com o país, ele não tem porque deportar".


Raciocínio parecido é repetido à BBC News Brasil por Leandro. "Nesse tempo todo, eu sempre paguei meus impostos, nunca fiz nada errado, sempre fugi de confusão. Se o governo quisesse me expulsar, já tinha me encontrado. Mas não tem interesse porque eu contribuo economicamente para o país", diz o apoiador de Trump.



Dono de uma empresa de construção civil na região de Boston, Massachussets, o paulistano Roberto*, de 38 anos vai ainda mais fundo no argumento. Ele veio ao país como turista e foi ficando ao longo de dez anos, eventualmente em situação irregular, até que se casou com uma americana.


Hoje é cidadão dos EUA e entusiasta de Trump. "O tanto que eu já sofri, passei fome, morei de favor… Sem sacrifício não tem retorno. O motivo que eu voto no Trump é que ele quer aqui quem faz bem pro país dele, quem quer trabalhar. Quem não quer, tchau. Hoje eu tenho muitos funcionários, mas sempre trabalhei 50, 60 horas por semana. Agora as pessoas querem que o governo dê tudo pra elas, querem ficar aqui sem pagar imposto, eu sou contra. Eu nunca ganhei nada de graça de ninguém", diz Roberto, que já não vive sob risco de expulsão.


A lógica por trás do argumento desses migrantes apoiadores de Trump mistura dois conceitos importantes na comunidade brasileira nos EUA. O primeiro é o de que o expatriado aqui se torna capaz de consumir e crescer dependendo apenas do suor de seu rosto. Para aqueles que não têm documentos, e portanto são invisíveis aos olhos do Estado, a ideia de ser um "self made man" é poderosa.


"Essa ideologia de meritocracia, a ideia da cultura americana de fazer por si só, permeia o imaginário da comunidade. E quando o migrante chega aqui e percebe que em duas semanas ganha o suficiente não só para se sustentar como para consumir, essa ideia fica ainda mais forte", afirma a paraense Heloiza Barbosa, de 53 anos, idealizadora do podcast Faxina, que conta histórias de brasileiros que vieram ilegalmente para os Estados Unidos e ganharam a vida com limpeza doméstica. A própria Heloiza trabalhou também como faxineira em Boston, logo que chegou ao país, em meados dos anos 1990.



O segundo conceito é o que Heloiza chama de "discurso do bom imigrante". É a ideia de que não serão denunciados ou expulsos do país "se não causarem problemas, se deixarem de usar até os serviços públicos a que têm direito, se não questionarem caso não sejam pagos conforme o combinado".


Mas Silva, deportado no início do ano, percebeu na pele os limites desse argumento. "A sorte não é para todos", ele diz.

'Deus vai tocar o coração dele'

A brasiliense Simone*, de 40 anos, chegou há 5 anos aos EUA com visto de turista, mas para ficar. Sem documentos, trabalha como faxineira na região de Boston. Evangélica, casada com um brasileiro também indocumentado e mãe de dois filhos nascidos nos EUA, ela é pessoalmente contra Trump, pois vê seu posicionamento em relação à migração como uma ameaça contra sua família.


Mas foi durante um ato numa igreja metodista que ela presenciou uma das defesas mais contundentes de Trump, de uma brasileira também indocumentada no país. "Ela disse que ninguém poderia falar mal do presidente Trump, olhou pra mim e falou: 'Deus vai colocar no coração dele o desejo de legalizar cada um de nós'".


Eleitores cristãos são parte da base eleitoral de Trump, considerado um dos maiores defensores das bandeiras conservadoras desses grupos, especialmente numerosos entre latinos. Às vésperas da eleição, Trump indicou para uma cadeira na Suprema Corte a juíza católica Amy Coney Barrett, que poderá ser o voto decisivo para a derrubada da decisão judicial dos anos 1970 que legalizou o aborto em todo o país.


"Pra mim, a questão do aborto é um divisor de águas. Coloco a vida desses bebês acima da minha questão de migração", afirma Leandro, católico que vai todo domingo à missa das 9 da manhã em uma igreja com cerimônias religiosas em Língua Portuguesa na Flórida

'Macho man'

Entre os migrantes com origem na América Latina, não só uma parcela de brasileiros mostra simpatia por Trump. De acordo com as pesquisas, a despeito de sua posição anti-imigração, ele conta com o apoio de 30% do eleitorado latino.


É certo que nesse grupo há um grande contingente de venezuelanos e cubanos, para quem o discurso anticomunista do presidente tem um apelo especial. Mas as pesquisas em diferentes Estados têm mostrado na verdade um apoio desproporcional de homens latinos a Trump, quando comparados a mulheres de mesma origem.


De acordo com um levantamento de agosto feito pelo Instituto Equis, por exemplo, no Arizona, um dos chamados Estados-pêndulo (onde não há favorecimento histórico a determinado partido), enquanto Trump recebia o apoio de 40% dos homens latinos, apenas 19% das mulheres latinas diziam apoiar o republicano.


Interessado em entender o fenômeno, o jornal The New York Times entrevistou homens de origem mexicana, que apontaram no estilo político de Trump, que inclui elementos de uma masculinidade assertiva e até mesmo agressiva, um traço que os atrai.


O mesmo aspecto surge nas conversas com brasileiros, e nesse caso, a contraparte brasileira de Trump, o presidente Jair Bolsonaro, ajuda a compor esse quadro. "A semelhança entre Bolsonaro e Trump é que eles são eles mesmos, não fazem cena de bom mocinho. Que eu saiba, o Trump vai no cassino, gosta da mulherada, e o Bolsonaro também, fala o que quer, xinga, fala palavrão, não fica fazendo a ceninha do cara engravatadinho, que fala tudo bonitinho. Ele não tem essa etiqueta e acho que é por isso que o povo se identifica", afirma Leandro.


Para Silva, "Bolsonaro é o cara", assim como Trump.


Ciente desse efeito, na semana passada, em um comício na Flórida, Trump afirmou diante do avião presidencial: "me sinto tão poderoso". Na sequência, dançou ao som de Macho Man, do grupo Village People, para delírio da plateia de apoiadores.

domingo, 25 de outubro de 2020

O futuro da imigração..



As sociedades devem manter as portas sempre abertas aos milhões que estão fugindo da violência no mundo?... 


Não se via uma crise global de refugiados desse porte desde o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Mais de 65 milhões de pessoas – o equivalente a vinte por cento da população norte-americana – foram desalojadas ao redor do mundo; dessas, 21 milhões são refugiados. Só na Síria, 6 milhões deixaram suas casas e outros quase cinco deixaram o país.

Tanto a Europa como os EUA estão em uma posição precária: as democracias são frágeis e movimentos de direita pela anti-imigração, fomentados pelo preconceito e pelo medo, estão em ascensão.

No Fórum da Democracia, realizado pelo New York Times em Atenas, na Grécia, em setembro, Roger Cohen, colunista do "New York Times", foi o moderador da discussão sobre imigração entre Stavros Lambrinidis, representante especial da União Europeia para os Direitos Humanos, o ex-primeiro-ministro italiano Mario Monti e Lucas Papademos, ex-primeiro-ministro da Grécia.

A conversa girou basicamente em torno do futuro da imigração e quais as obrigações internacionais – se é que há alguma – de receber bem, assimilar e proteger aqueles que procuram asilo. Segue uma versão editada e condensada do diálogo.


Roger Cohen: Tendo em mente as lições da Segunda Guerra Mundial e a maneira como as portas se fecharam para os refugiados nos anos 1930, o que devem fazer as sociedades, manter as portas sempre abertas aos necessitados? Ou às vezes são obrigadas a fechá-las?

Stavros Lambrinidis: Não. Acho que deve se manter aberta, mas a imigração e o número de refugiados têm de ser controlados. Não pode deixar virar caos. Sob nenhuma hipótese se deve fechar a porta para alguém cujo único crime foi ter nascido numa região pobre ou destruída pela guerra. Ao mesmo tempo, é preciso lidar com as causas desses problemas, do contrário estaremos só amenizando as consequências.

Falamos de crise de refugiados na Europa, mas acho que essa é uma denominação errônea. Acima de tudo é uma crise para milhões de homens, mulheres e crianças que tiveram de deixar seus países, enfrentando todo tipo de dificuldade, inclusive traficantes humanos, para chegar aqui, correndo o risco de se afogarem.

Roger Cohen: Mas eles não são refugiados?

Stavros Lambrinidis: Você é refugiado quando é reconhecido como tal. Eles estão em busca de asilo. Estão deixando seus países por outros, geralmente próximos de onde estão porque, em teoria, pretendem voltar. A segunda grande crise é a que estão enfrentando nos países de onde eles saem. Não podemos nos esquecer que, a princípio, são violações aos direitos humanos – falta de um governo decente, guerra, pobreza, desigualdade, corrupção –, os grandes motivadores desse êxodo.

A União Europeia tem de ser eficaz de duas maneiras: lançando mão de responsabilidades internacionais, na forma de leis, para proteger as pessoas que chegam às suas fronteiras, e fornecer ajuda humanitária, de desenvolvimento e perspectivas para as pessoas antes de elas partirem.
Pierre Terdjman/The New York Times


Roger Cohen: Como isso se aplica à Síria, por exemplo, um país que foi destruído? Ali, a própria ideia da violação de direitos humanos parece quase pitoresca. O que a União Europeia pode fazer para interromper o fluxo de gente desesperada saindo de lá e de outras nações em situação semelhante?

Stavros Lambrinidis: Além de nos esforçarmos para encontrar uma solução diplomática pacífica, estamos dando apoio com milhões de euros a estruturas dentro da Síria – de governo, educação, fornecimento de água –, tudo o que impeça o país de entrar em colapso, de modo que quando estiver pronto para a reconstrução política, terá infraestrutura para tal. Acontece que isso não tem glamour.

Roger Cohen: Não, não tem.

Stavros Lambrinidis: Estamos tentando provar aos milhões de sírios desalojados que, apesar de todo o sofrimento, não estão sozinhos nessa crise. Estamos fazendo de tudo para garantir que quando tudo isso acabar, eles tenham base suficiente para poder reconstruir o país sem ter de depender da caridade de terceiros.

Roger Cohen: Mario Monti, há momentos em que as sociedades ocidentais têm de simplesmente fechar suas portas? As pressões são muito grandes, os movimentos de direita estão ficando cada vez mais barulhentos e o povo parece não estar preparado para aceitar o aumento repentino de estrangeiros entrando na sociedade.

Mario Monti: Se você visitar o museu da imigração de Ellis Island, acaba vendo uma relação, em termos de longo prazo, muito positiva entre imigração e a diversidade, a vibração e o crescimento de um país. Não há dúvida quanto a isso.

Roger Cohen: Então por que essa ideia não pega mais?

Mario Monti: Por causa da evolução de nossas democracias. Talvez a rejeição que muita gente tem aos imigrantes e refugiados tenha ganhado um destaque excessivo. Ela se espalha e conquista a maioria da opinião pública devido à natureza imediatista do discurso político. A política atual nas sociedades democráticas tem de ser conduzida na base dos 140 caracteres de um tuíte ou no trecho de dez segundos de um debate político na TV. Isso cria uma seleção adversa de qualidade, integridade e erudição dos argumentos.

Deixamos nas mãos de determinados países a responsabilidade de lidar, em longo prazo, com a economia, a sociedade, só que eles não mostram uma preferência definitiva pela democracia. Podemos ter o sistema político de governo mais forte e mais íntegro, mas acabamos dilapidando-o com uma competição política mais acirrada e mais superficial.
The New York Times


Da esquerda para a direita, Cohen, Lambrinidis, Monti e Papademos


Roger Cohen: Você quer dizer então que, por causa dessas pressões, a solução é dizer "não" de vez em quando?

Mario Monti: A União Europeia tem d voltar a ser forte o suficiente para dominar essas reações. Num ambiente regulamentado não se pode pertencer a um sistema aberto e decidir, de uma hora para a outra, fechá-lo. Nesse caso, a retaliação seria ainda pior.

Roger Cohen: Sr. Papademos, qual a sua solução para essa questão?

Lucas Papademos: No geral e por princípio, não devemos fechar as portas aos necessitados e perseguidos, ou seja, os dois tipos de imigrantes com que estamos lidando, por motivos humanitários, democráticos, econômicos e legais. Ao mesmo tempo, não acho que seja realista, nem apropriado, manter as portas escancaradas.

Temos de evitar a repetição dos horrores da Segunda Guerra Mundial e, mais recentemente, a tragédia dos inocentes morrendo na Síria e no Mediterrâneo para chegar à nossa costa. Há também obrigações legais que estão sendo esquecidas: a Convenção de Refugiados de 1951, adotada logo após a Segunda Guerra Mundial e corroborada por 145 países, exige que as nações aceitem refugiados e pessoa sem busca de asilo, mesmo que cheguem ali ilegalmente.

A terceira razão por que as portas devem se manter abertas são os benefícios econômicos. Acho que subestimamos a imigração como fator gerador de longo prazo, particularmente relevantes para o continente. Pode reforçar o crescimento econômico graças ao aumento da mão de obra, principalmente em países cuja população está envelhecendo e enfrenta sérios problemas demográficos. Pode também, pelo fato de a maioria dos estrangeiros ser jovem e em idade de trabalhar, servir de respaldo para as finanças públicas e o sistema de seguridade social. Porém, é claro que, em curto prazo, pode haver efeitos adversos.

Por fim, um detalhe que pode ser estranho para muitos de vocês: a imigração pode desempenhar um papel decisivo na inovação e no empreendedorismo. Vi algumas estatísticas recentes que mostram que, na Califórnia, 44 por cento das novas start-ups com valores de pelo menos US$1 bilhão estão associadas a empresas estabelecidas por pessoas não nascidas nos EUA.

Roger Cohen: Muito bem falar de benefícios econômicos de longo prazo, mas o problema é quando acontece algo como em Paris e Nice, ou um ataque com machado como no trem na Alemanha, as pessoas se concentram nessas coisas, pois elas causam pânico. Stavros, em discurso nos EUA, você criticou o país por estar muito preocupado em achar que todo imigrante praticamente pode ser terrorista. Como superar esse medo que agora tomou conta das sociedades ocidentais?

Stavros Lambrinidis: Há duas maneiras de se fazer isso: uma, especialmente nas sociedades baseadas na razão, é pelo menos tentando usar um argumento razoável e falar abertamente sobre os fatos. Quando eu disse isso, nos EUA estávamos discutindo se o país deveria aceitar refugiados sírios. O argumento usado por aqueles que são contra é o do terror. De fato, os EUA aceitaram milhares de refugiados nos últimos anos e descobriu entre eles apenas três que têm potencial de ser ameaça à segurança.

Digo a vocês que o mundo tem de começar a pensar em segurança, como fez com o desenvolvimento há alguns anos, e na palavra mágica: sustentabilidade. Dá realmente para ter uma segurança sustentável se prender milhares de egípcios sem provas de que são terroristas, simplesmente porque acreditam numa religião, num movimento? Você vai radicalizá-los quando saírem da cadeia. Está sabotando o próprio sistema judiciário que, em longo prazo, precisa que seja bem-sucedido e estável. A segurança sustentável, assim como o desenvolvimento, tem de se tornar o novo paradigma da União Europeia.

Josh Haner/The New York Times


Roger Cohen: Mario, o que você diria se a chanceler Angela Merkel fosse vê-lo em Roma e falasse: “Agi bem, aceitei um milhão de refugiados; sem isso, a União Europeia teria rachado ainda mais rapidamente. Acho que vou perder as próximas eleições porque a opinião popular está se levantando contra mim. Fiz a coisa errada?”

Mario Monti: Eu diria a ela: “Angela, veja o seu antecessor, Helmut Kohl; hoje ele é lembrado na história europeia como o homem que instaurou o euro na Alemanha. Superou o obstáculo mais difícil, ou seja, a rejeição mental e psicológica do cidadão alemão comum à nova moeda, que suplantaria o adorado marco alemão. Ao fazer isso, perdeu as eleições de 1998 para Gerhard Schröder que, na época, fez campanha contra a nova moeda."

"Você está mais interessada em fazer mais um governo, o que só adiaria o momento da separação entre você e o poder, ou preferiria entrar para a história europeia e alemã sendo respeitada e com moral alto?".

Roger Cohen: Vimos os britânicos, em resolução extraordinária, votarem a favor da saída da UE. Lucas, até que ponto você teme a dissolução da União Europeia por causa da pressão da imigração em massa?

Lucas Papademos: Estou bastante preocupado porque, no momento, a UE enfrenta várias crises simultâneas, sendo que uma delas ainda se refere à fraqueza econômica. Mas a crise da imigração também é resultados de uma grande divisão entre os países – norte e sul, ocidente e oriente. O fluxo parece ter sido contido de forma razoável, mas se o pacto com a Turquia não for obedecido, se as guerras continuarem ou se o êxodo tiver novos picos, acho que isso tudo pode influir decisivamente como ameaça à coesão da Europa e ao seu futuro.

É muito importante lidar com as preocupações econômicas imediatas do povo – ou seja, o alto nível de desemprego e da desigualdade dentro dos países – e cuidar para que elas não ofusquem os benefícios de longo prazo da imigração.

Para que a política de refugiados seja efetiva, é importante que não só haja uma estratégia eficiente, como também que o fardo seja bem dividido, de modo que Itália e Grécia, que recebem um número muito maior de refugiados e imigrantes por causa da proximidade geográfica, não arquem com as consequências sozinhos. Você acha que há chances, principalmente depois do Brexit, de que a União Europeia, mais particularmente a zona do euro, se dissolva? Eu diria que, embora a probabilidade seja alta, é pouco provável.

Stavros Lambrinidis: Se a Europa pode entrar em colapso por causa de imigração? Minha resposta é um "não" enfático. Fiquei surpreso porque uma das primeiras coisas que os defensores do Brexit repudiaram após o resultado do referendo foi que, de alguma forma, o fluxo de imigrantes no Reino Unido mudaria de forma drástica.

A Europa enfrenta uma crise, sim, mas não de políticas específicas, e sim de valores. Inúmeros economistas de todas as partes do mundo analisaram o euro e disseram que era economicamente inviável, que não podia dar certo – e, no entanto, apesar das sérias crises, continua sendo uma das moedas mais fortes do mundo. Por quê? Porque foi criado como política, com uma base sólida de valores.

Essa ideia de que a Europa era uma união solitária e o fato de acharmos que pertencendo a ela teríamos nossos benefícios nacionais multiplicados fez com que as políticas, inclusive até as que eram consideradas instáveis, perfeitamente capazes de vingar. Por outro lado, quando se pensa na imigração e na política sóbria que define a questão, você imagina que alocar dois milhões de pessoas entre os 28 Estados membros seria coisa fácil.

Roger Cohen: Quando há mais de dois milhões de refugiados na Turquia e eles já representam 20% da população do Líbano.

Stavros Lambrinidis: Não está criando raízes com facilidade. Eu digo que isso é porque hoje temos valores instáveis. A imigração é uma questão global, não europeia, e foi por isso que a discuti quando estive nos EUA. Se você tem que combater a guerra e as violações aos direitos humanos, tem de fazer isso em nível global.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

'Descendentes precisam saber que história da África é tão bonita quanto a da Grécia'



Principal africanólogo brasileiro, diplomata Alberto da Costa e Silva diz que negro não aparece na nossa história 'como realmente foi, um criador, um povoador do Brasil'.

Fernanda da EscóssiaDo Rio de Janeiro para a BBC Brasil


Segundo o acadêmico Alberto da Costa e Silva, Brasil precisa mudar olhar em estudo da África (Foto: Guilherme Gonçalves/ABL)

Quando começou a se interessar pela história da África, o poeta, diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva ouviu: "Por que você, um diplomata, um homem tão letrado, não vai estudar a Grécia?"

Justamente porque todo mundo estudava a Grécia, explica, ele resolveu estudar a África. Hoje, é o principal africanólogo brasileiro, autor de clássicos como A Enxada e a Lança: a África antes dos Portugueses e A Manilha e o Libambo: a África e a Escravidão, de 1500 a 1700. E, aos 84 anos, prepara um novo livro para completar sua trilogia sobre história africana.
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Seis coisas que você provavelmente não aprendeu na escola sobre a África
A professora que luta para valorizar Zumbi em escola de Palmares

Formado em 1957 pelo Instituto Rio Branco, Costa e Silva serviu em vários países e foi embaixador na Nigéria.

É membro da Academia Brasileira de Letras, autor e organizador de mais de 30 livros. Por sua obra, recebeu em 2014 o Prêmio Camões, o mais prestigiado da língua portuguesa.

Filho do poeta piauiense Antônio Francisco da Costa e Silva, nasceu em São Paulo e viveu no Ceará até aos 12 anos, quando mudou-se para o Rio de Janeiro. Cresceu entre livros e costuma dizer que, como no verso do poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867), seu berço "ao pé da biblioteca se estendia".

Foi entre livros, quadros e esculturas, no apartamento em que guarda lembranças de vários lugares do Brasil e do mundo, que ele recebeu a BBC Brasil às vésperas do Dia da Consciência Negra para falar da história do continente pelo qual se apaixonou.

BBC Brasil: Como o Brasil aprendeu a história da África?

Alberto da Costa e Silva: A história da África durante muito tempo foi uma espécie de capítulo de antropologia e etnografia do continente africano. Eram livros que árabes e europeus escreveram sobre suas viagens. Data do fim da Segunda Guerra Mundial a consolidação a história da África como disciplina à parte, semelhante à história da Idade Média europeia, ou à história da China.

Entre 1945 e 1960 seu estudo começa a ganhar grandes voos, tanto na África quanto na Europa, sobretudo Inglaterra e França. Curiosamente o Brasil esteve ausente disso. Os historiadores brasileiros sempre viam a história das relações Brasil-África com a África figurando como fornecedora de mão de obra escrava para o Brasil, como se o africano que era trazido à força nascesse num navio negreiro.

Era como se o negro surgisse no Brasil, como se fosse carente de história. Nenhum povo é carente de história. E a história da África é uma história extremamente rica e que teve grande importância na história do Brasil, da mesma maneira que a história europeia.

De maneira geral, quando se estuda a história do Brasil, o negro aparece como mão de obra cativa, com certas exceções de grandes figuras, mulatos ou negros que pontuam a nossa história. O negro não aparece como o que ele realmente foi, um criador, um povoador do Brasil, um introdutor de técnicas importantes de produção agrícola e de mineração do ouro.

BBC Brasil: O senhor poderia citar alguns exemplos?

Costa e Silva: Os primeiros fornos de mineração de ferro em Minas Gerais eram africanos. Fizemos uma história de escravidão que foi violentíssima, atroz, das mais violentas das Américas, uma grande ignomínia e motivo de remorso. Começamos agora a ter a noção do que devemos ao escravo como criador e civilizador do Brasil.

Quando o ouro é descoberto em Minas Gerais, o governador de Minas escreve uma carta pedindo que mandassem negros da Costa da Mina, na África, porque "esses negros têm muita sorte, descobrem ouro com facilidade". Os negros da Costa da Mina não tinham propriamente sorte: eles sabiam, tinham a tradição milenar de exploração de ouro, tanto do ouro de bateia dos rios quanto da escavação de minas e corredores subterrâneos. Boa parte da ourivesaria brasileira tem raízes africanas.

Temos de estudar o continente africano não como um capítulo à parte, um gueto. A história da África está incorporada à história do mundo, porque ela foi parte e é parte da história do mundo. Que a história do negro no Brasil não seja isolada, como se o negro tivesse sido um marginal. O negro foi essencial na formação do Brasil.

BBC Brasil: Qual a importância de um personagem como Zumbi?

Costa e Silva: Havia um suplemento juvenil do jornal A Noite, sobre grandes nomes da história, e eu me lembro perfeitamente de um caderno sobre Zumbi. Zumbi está aliado de tal maneira à ideia de liberdade que é difícil escrever sobre ele sem ser apaixonado.

Zumbi não é um nome, é um título da etnia ambundo, significa rei, chefe. Palmares era como um Estado africano recriado no Brasil. Na África era muito comum isso. Em torno de um núcleo de poder forte se aglomeravam vários povos e formavam um novo povo. Isso é uma hipótese.

BBC Brasil: O senhor vê um aumento do interesse dos brasileiros pela questão negra?

Costa e Silva: Tenho a impressão de que todos temos dentro de cada um de nós um africano. Podemos não ter consciência disso, mas é permanente. Há naturalmente hoje em dia uma percepção mais nítida do que é a África, a escola começa a dar uma visão mais clara.

Mas ainda apresenta visões distorcidas. Uma vez uma professora veio me dizer que era absurdo que apresentássemos Cleópatra como uma moça branca, quando ela era negra. É um equívoco isso. Cleópatra não era negra nem mulata. Era grega. Os Ptolomeus, uma dinastia grega, governavam o Egito e não se misturavam.

BBC Brasil: Na África também havia escravos, não?

Costa e Silva: Escravidão houve em todas as culturas no mundo. Todos nós somos descendentes de escravos. Houve escravidão em toda a Europa, na Indonésia, entre os índios americanos, na Inglaterra. Na África havia todos os tipos de escravidão, e até hoje em certas regiões africanas os descendentes de escravos são discriminados. Quase toda a África teve escravidão.

A escravidão transatlântica, da África para as Américas, a nossa, tem uma diferença básica: pela primeira vez era uma escravidão racial. Era um especial aspecto da perversidade dela. No início não, mas a partir de certo momento, passa a ser exclusivamente negra. Foi o maior deslocamento forçado de gente de uma área para outra que a história já conheceu, e o mais feroz.

O Brasil foi o último país das Américas e do Ocidente a abolir a escravidão. O último do mundo foi a Mauritânia (na África), em 1981.

BBC Brasil: Como analisa o racismo hoje no Brasil?

Costa e Silva: Existe racismo, e muitíssimo. No nosso racismo, não temos um partido racista, mas temos repetidas manifestações de racismo no seio da sociedade. É dificílimo, para um negro, ascender socialmente. A discriminação se exerce de forma muitas vezes dissimulada, mas que os marca muito. Mas está mudando. Sinto mudanças.

É importante que os descendentes de africanos saibam que eles têm uma história tão bonita quanto a história da Grécia. Que eles não eram bárbaros, que não são descendentes de escravos. São descendentes de africanos que foram escravizados.

Para mim o importante não é que haja cota na universidade. Acho que tem de haver cota em tudo. Se você vai se candidatar a um cargo de atendente de hotel de primeira classe, se você for negro, você tem dificuldade. O preconceito é discriminatório. Ele não impede você de usar o mesmo banheiro, o mesmo bebedouro, mas dificulta o acesso (do negro) às camadas das classes média e alta.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

PERTO DO INIMIGO: A HISTÓRIA DA JUDIA QUE FOI VIZINHA DE HITLER



Em Munique, a família de Alice Frank Stock dividiu paredes com o líder nazista, em uma convivência de constante medo e tensão

ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 27/09/2020, ÀS 08H00

Alice Frank Stock e o prédio que dividiu com Hitler em Munique - Divulgação/Youtube/Today News US/Wikimedia Commons


No número 16 da avenida Prinzregentplatz, em Munique, na Alemanha, estava um edifício de apartamentos. Ele poderia ser o mais comum possível, no entanto, quem habitava o aposento 13 ou 15 era Adolf Hitler. Do lado dele, vivia uma família judia. Por mais que essa mistura não pudesse funcionar, eles nunca chegaram a conversar.

Tudo isso foi contado por Alice Frank Stock, que hoje tem 101 anos e que, durante as décadas de 1920 e 1930 viveu a poucos metros da figura histórica que causaria um sofrimento terrível para seu povo. Judia, a mulher passou anos morando ao lado do nazista, acompanhando sua rotina.

Nascida em Augsburg, ela se mudou para a capital da Bavária com apenas três meses de idade, em 1918. No edifício que dividia com Hitler, viveu até seus 17 anos, quando foi enviada para estudar na cidade de Lausanne, Suíça. Naquela época, o perigo para judeus aumentava cada vez mais na Alemanha.


Convivência com o inimigo
Hitler discursa em congresso do partido nazista / Crédito: Getty Images



Em entrevista ao jornal britânico Daily Mail, Stock afirma que não chegou a ter contato direto com Hitler. Eles poderiam até se ver, mas não tinham nenhum contato pessoal. “Morávamos em uma casa — uma casa grande — e havia duas entradas. Um era nosso apartamento, o número 14 — o outro era o número 13 ou 15. Era onde Hitler morava”, disse.


“Eu nunca falei com ele. Eu o vi uma ou duas vezes voltando para casa. Seu carro iria parar, dois homens da SS pulariam de cada lado e ele correria para a casa — obviamente aterrorizado com alguém que tentasse matá-lo”, explicou a aposentada.

Hitler havia se mudado para o apartamento em 1929 e, inclusive, a poucos metros da família judia, estava também o local de nascimento do Partido Nazista. O líder chegou até mesmo a deixar o edifício antes deles: em 1934, o Führer se mudou do prédio para se tornar Chanceler; três anos depois, os Stock fugiram para Londres pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial.

Durante o período que eles viveram, de fato, no mesmo quarteirão, inúmeros rumores corriam pelos corredores do bloco. Alice disse que chegou a ver um caixão saindo da casa do nazista em algum momento, mas que era muito difícil conseguir qualquer informação sobre o que se passava ali perto.


“Ouvimos muitos [boatos], da cozinheira e de outros. Vimos um caixão sendo carregado para fora da entrada. Acho que uma sobrinha de Hitler estava morando lá e depois morreu. Especulou-se como e quando ela morreu” afirmou.

Mas ela também explica: “Acho que era verdade que o caixão foi carregado e nele havia uma mulher. Mas nunca houve confirmação — e você não podia falar abertamente”. O caso em questão foi o possível relacionamento de Hitler com sua sobrinha, Geli Raubal, que, de fato, cometeu suicídio dentro do apartamento.

Medo constante
Alice Frank Stock atualmente / Crédito: Divulgação/Youtube/Today News US



Com isso, é possível perceber que, por mais que a convivência fosse “pacífica”, havia ainda algum clima de tensão no ar. Mesmo que Hitler não soubesse que na parede ao lado estava uma família judia, seus membros ainda tinham que ter o maior cuidado possível e não expor-se demais.

A aposentada de 101 anos disse que eles viviam constantemente com medo das represálias, embora o líder ainda estivesse no começo de sua carreira e não os visse, de fato. Ela contou que uma vez, sua cozinheira quase colocou tudo à perder apenas ao falar mais alto que o normal.

“Tínhamos uma cozinheira maravilhosa que era idosa e muito católica — e muito anti-Hitler. Uma vez ela saiu e viu uma foto de Hitler pendurada na parede e disse: ‘Sim, ele deveria ser enforcado, o canalha — mas não assim!'. Eu disse: ‘Você vai colocar todos nós em um campo de concentração!’”, explicou.

Felizmente, a família não sofreu com nenhuma retaliação vinda do líder nazista. A convivência era cheia de nervosismo — apenas para os Stock, e provavelmente foi um alívio ver o homem deixar o local em 1934. Ainda que tivesse o apartamento, o nazista preferia passar seu tempo em outras cidades, visitando o prédio em questão com pouca frequência.

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quarta-feira, 18 de julho de 2018

Mais da metade dos venezuelanos que entraram no Brasil já saiu do país Agência Brasil


Marcelo Camargo / Agência Brasil /
Os venezuelanos buscam abrigo no Brasil fugindo da crise econômica intensa instalada no país vizinho


Dos 127,7 mil imigrantes venezuelanos que entraram no Brasil pelo município de Pacaraima, na região de fronteira de Roraima, no ano passado e neste ano, mais da metade já deixou o país. Dos 68,9 mil que saíram, a maior parte (47,8 mil) fez o caminho por fronteira terrestre e 21,1 mil pegaram voos internacionais.

Os dados foram apresentados na 5ª reunião do Comitê Federal de Assistência Emergencial, realizada nesta segunda-feira (16) no Palácio do Planalto, e divulgados pela Casa Civil.


Dentre os venezuelanos que deixam o país por via terrestre, 66% voltam ao país natal pora Pacaraima; 15% pela Ponte Tancredo Neves, em Foz do Iguaçu, no Paraná; 6% por Guajará-Mirim, em Rondônia; 6% por Uruguaiana, no Rio Grande do Sul; e 7% por outras localidades.

De acordo com os dados divulgados pela Casa Civil, as principais rotas de saída por via aérea são os aeroportos de Guarulhos, em São Paulo (58%); Manaus (15%), Brasília (13%) e do Galeão, no Rio de Janeiro (11%).

Os venezuelanos buscam abrigo no Brasil fugindo da crise econômica intensa instalada no país vizinho. Eles chegam ao Brasil pela fronteira com Roraima.

Pedidos de refúgio e residência

De 2015 a junho deste ano, 56,7 mil venezuelanos procuraram a Polícia Federal para solicitar refúgio ou residência no Brasil.

Nesse período, 35,5 mil pediram refúgio e 11,1 mil solicitaram residência. Além desses, 10,1 mil agendaram atendimento, sendo que 5,9 mil não retornaram.

Interiorização

Ao todo, cerca de 4 mil venezuelanos estão em nove abrigos de Roraima. Até agora, 690 foram levados para as cidades de São Paulo, Manaus, Cuiabá, Rio de Janeiro, Igarassu e Conde, ambas na Paraíba. Está prevista para a próxima semana novas viagen para Brasília, Cuiabá, Rio de Janeiro e São Paulo.

Em abril, o governo deu início a um processo de distribuição de imigrantes venezuelanos concentrados em Roraima para outras unidades da federação, no chamado processo de interiorização.