sexta-feira, 20 de novembro de 2020

O que pensam os imigrantes ilegais brasileiros que apoiam Trump


Economia, conservadorismo e estilo durão explicam porque até mesmo brasileiros deportados por Trump o apoiam.
Por Mariana Sanches, BBC

19/10/2020 09h29 Atualizado há 3 semanas




'Se o Trump mandou a gente embora, então a gente vai embora', diz Waldir (na foto com a família) — Foto: Arquivo Pessoal/BBC

Ao pisar no avião que o traria deportado dos Estados Unidos para o Brasil, há 10 meses, o agricultor Waldir Pereira da Silva, de 44 anos, conta que se sentiu aliviado. Pode soar estranho que alívio tenha sido a sensação de alguém que, no momento da decolagem do avião fretado pelo governo americano, viu enterrado seu sonho de reconstruir a vida nos EUA — pelo qual tinha pago R$ 126 mil a um traficante de pessoas, que prometera atravessar não apenas Silva, mas sua mulher Sedneia, de 36, e a filha do casal, Ana, de 14, pela fronteira com o México.

"Só que os americanos nos pegaram e eram tão brutos com a gente. Diziam que eles eram bons, e a gente era bandido, terrorista, querendo fazer mal no país deles. Era tanto sofrimento, que eu fiquei aliviado quando acabou", relatou Silva à BBC News Brasil, enquanto trabalhava em uma lavoura de café, em Alvorada, Rondônia.

Mesmo com pandemia, mais de 7,6 mil brasileiros foram detidos ao tentar entrar ilegalmente nos EUA em 2020

Depois de atravessar o rio Grande entre Ciudad Juarez, no México, e a cidade texana de El Paso, em fevereiro de 2020, não demorou muito para que Silva e a família fossem encontrados pelo serviço de imigração americano. A partir daí, eles passaram 16 dias em um centro de detenção, com muito medo e pouca comida, até engrossarem as fileiras de centenas de brasileiros já deportados sumariamente pelos Estados Unidos, em uma política de expulsão expressa de cidadãos do Brasil iniciada pela gestão de Donald Trump no fim do ano passado.

Silva e sua família sentiram na pele o que é a propalada política de tolerância zero do presidente Donald Trump com migrantes irregulares. Ainda assim, ele não nutre qualquer rejeição pelo comandante por trás do aparato estatal que o impediu de chegar à Carolina do Norte, onde sua rede de contatos lhe prometera que Silva ganharia R$ 80 por hora em serviços gerais, e não por dia, como em Rondônia.

"Eu apoio o Trump. Sempre gostei dele porque ele é uma pessoa rígida, que quer as coisas certas e bem feitas. Cada país tem a sua política e eu não tenho nada que discordar. Se o Trump mandou a gente embora, então a gente vai embora. Acho que o Brasil tinha que ser assim também, o Brasil é muito liberal, qualquer um entra, faz o que quer. O Trump é maneiro, segue princípios bíblicos, é sério, melhorou a economia e fala tudo o que ele pensa na cara mesmo", diz Silva, fiel da igreja evangélica Assembleia de Deus. Ele também é fã de Bolsonaro e da relação do atual presidente brasileiro com o americano. "Meu sogro sempre dizia: a gente tem que se escorar em árvore grande, que dá sombra", explica.

Sem documentos, a favor de Trump



Donald Trump está na reta final da sua campanha por reeleição — Foto: Reuters/BBC

Silva resume de modo simples os motivos pelos quais uma parcela significativa de migrantes brasileiros sem documentos apoia Trump, mesmo que as políticas do americano os mantenham sob risco constante de deportação: uma economia que apresentava pleno emprego até a pandemia de Covid-19 atingir o país, a defesa de uma agenda cristã e conservadora nos costumes e uma imagem de político destemido e durão.

A comunidade brasileira nos EUA é composta por cerca de 1,2 milhão de pessoas, das quais entre 250 mil e 400 mil estão em situação ilegal, segundo estimativa de 2016 do Migration Policy Institute. Embora não haja pesquisas sobre preferência eleitoral dos brasileiros no país para o pleito presidencial atual, existe uma impressão generalizada de que a maior parte da comunidade apoia o democrata Joe Biden, mas que o percentual dos que preferem Trump, tenham ou não documentos, — não é nada desprezível.

Prova disso é o outdoor que adorna atualmente a cidade de Governador Valadares (MG), origem de grande contingente de migrantes brasileiros no país. Ao lado de uma foto de Trump, há os dizeres: "A favor de Deus, a favor da família, a favor da vida, a favor de Israel e a favor do Brasil".

Migrantes indocumentados não votam nas eleições americanas, mas suas convicções políticas têm capacidade de influenciar a comunidade como um todo e o voto de brasileiros com cidadania americana.

A BBC News Brasil entrou em contato com ao menos duas dezenas de indocumentados apoiadores de Trump na última semana, mas a maioria deles não quis falar mesmo em condição de anonimato. Isso porque, além da frágil situação migratória, esse grupo enfrenta também a censura do outro lado da comunidade brasileira, que vê na reeleição de Trump um risco iminente para a manutenção de seu sonho americano.


"Quando eu falo que eu gosto do Trump, o pessoal me chama de racista, mas eu olho pelo lado do governo, quero saber se ele está sabendo trabalhar. E ele está, está funcionando", afirma Leandro*, de 37 anos, que em junho de 2015 entrou nos EUA com um visto de turista e nunca mais foi embora. Hoje ele trabalha em uma agência de remessa de dinheiro ao Brasil em Miami, na Flórida. "É claro que eu sei que Trump não gosta de migrantes, mas tenho a esperança de que depois de fazer a limpa que ele quer, ele vai legalizar quem quer ficar aqui pra trabalhar", diz Leandro.

Prisões, separação de crianças, muro na fronteira

O próprio Trump, no entanto, nunca deu qualquer pista concreta que sustente a esperança de Leandro. Ele se elegeu em 2016, prometendo construir um muro na fronteira com o México e colocar pra fora do país o que chamou de "bad hombres", em uma referência a latinos que vivem sem documentos nos EUA. E embora só em alguns trechos o plano do muro na divisa com o México tenha realmente saído do papel, o republicano, que concorre à reeleição em menos de 20 dias, aumentou o número de detenções e prisões de pessoas indocumentadas durante seu mandato e segue fazendo do assunto uma bandeira política importante.


Sob a gestão de Trump, além da deportação sumária, os brasileiros também passaram a ser submetidos a um protocolo que os impede de esperar pela audiência na Justiça de migração em território americano e os devolve automaticamente ao México.


O muro contra imigrantes vindos do México foi uma das grandes promessas de Trump em 2016 — Foto: Reuters/BBC

Algumas dezenas de crianças brasileiras estavam entre os menores de idade separados de seus pais após entrarem ilegalmente nos EUA, em 2018, em uma medida da gestão Trump considerada cruel até mesmo por políticos do partido do presidente e mais tarde suspensa. E o governo intensificou também ações de fiscalização e prisão de migrantes em empresas conhecidas por empregar mão de obra indocumentada — como frigoríficos — e em cidades com forte presença de comunidades latinas.


O bolso explica

Leandro se considera um "refugiado econômico". Quando diz que o governo Trump "está funcionando", ele se refere à saúde econômica do país. "O giro da economia aumentou muito no governo dele. É difícil ver gente aqui falar: 'eu tô parado'. Índice de desemprego baixíssimo, é isso o que as pessoas querem", afirma o paulistano que deixou o Brasil depois que a agência de turismo em que trabalhava fechou.


Governador Valadares tem outdoor de apoio a Trump — Foto: Divulgação/BBC

Se no Brasil, Leandro conseguia um salário mensal de cerca de R$ 8 mil, em Miami, ele afirma que, fora da pandemia, ganhava U$ 5 mil por mês (algo em torno de R$ 25 mil). Mesmo na atual recessão, afirma tirar mensalmente cerca de US$ 3,5 mil (ou R$ 17 mil), uma renda que não conseguiria no Brasil.

"Ninguém gosta do Trump pessoalmente, mas ele tem uma política econômica muito boa. Ele diminuiu impostos para pequenas empresas e investiu em retomar a industrialização, pra trazer mais empregos pra cá", diz a paranaense Flora, de 25 anos, eleitora de Trump, ressoando argumentos que o próprio republicano não cansa de repetir.


Flora conseguiu se naturalizar nos Estados Unidos há 8 anos, depois que sua mãe se casou com um americano. Já Ricardo*, o irmão mais velho dela, era maior de idade na época do casamento e não teve direito à documentação. Isso não o impediu de se mudar com a mulher e os dois filhos para a pequena cidade de Roselle, em Nova Jersey, onde também mora Flora.

Ali, Ricardo mantém uma empresa de instalações elétricas registrada sob o nome da irmã. Durante a pandemia, o negócio de Ricardo foi socorrido pelo auxílio emergencial dado pelo governo Trump, o que parece ter selado definitivamente a simpatia dos irmãos pelo republicano.


O argumento desses brasileiros é comum a parte dos americanos. Durante a campanha presidencial, embora sempre aparecesse com vantagem na intenção de votos, Biden era considerado pelos eleitores pior do que Trump para lidar com a economia.


De acordo com uma pesquisa da rede CNN feita em maio, 54% dos eleitores acreditavam que Trump teria mais condições de fazer o país crescer, contra 42% dos que acreditavam que Biden fosse o melhor. Essa liderança, no entanto, foi diminuindo gradativamente até desaparecer na última pesquisa, divulgada na primeira semana de outubro: agora o resultado é 50% a 48% a favor de Biden.


Flora diz que sente medo pelo destino do irmão, da cunhada e dos sobrinhos, caso sejam localizados pelos agentes de imigração. Ela teme estar tomando uma "decisão errada" ao apoiar Trump, mas encontra segurança no comportamento do próprio irmão, potencialmente o maior prejudicado pelas políticas do republicano. "Ele é bem mais de direita do que eu, apoia o Trump e gosta do Bolsonaro também", diz Flora.

O mito do bom migrante e o 'self made man'

A realidade da deportação não é algo distante da família. Um amigo paranaense que também mora em Nova Jersey enfrenta há meses um processo migratório que deve resultar em sua expulsão do país. Apesar disso, Flora acredita que o irmão empresário não seria um candidato à deportação.


"Trump não quer nos país apenas quem acabou de chegar ou quem tem ficha criminal. Se a pessoa está aqui pra contribuir com o país, ele não tem porque deportar".


Raciocínio parecido é repetido à BBC News Brasil por Leandro. "Nesse tempo todo, eu sempre paguei meus impostos, nunca fiz nada errado, sempre fugi de confusão. Se o governo quisesse me expulsar, já tinha me encontrado. Mas não tem interesse porque eu contribuo economicamente para o país", diz o apoiador de Trump.



Dono de uma empresa de construção civil na região de Boston, Massachussets, o paulistano Roberto*, de 38 anos vai ainda mais fundo no argumento. Ele veio ao país como turista e foi ficando ao longo de dez anos, eventualmente em situação irregular, até que se casou com uma americana.


Hoje é cidadão dos EUA e entusiasta de Trump. "O tanto que eu já sofri, passei fome, morei de favor… Sem sacrifício não tem retorno. O motivo que eu voto no Trump é que ele quer aqui quem faz bem pro país dele, quem quer trabalhar. Quem não quer, tchau. Hoje eu tenho muitos funcionários, mas sempre trabalhei 50, 60 horas por semana. Agora as pessoas querem que o governo dê tudo pra elas, querem ficar aqui sem pagar imposto, eu sou contra. Eu nunca ganhei nada de graça de ninguém", diz Roberto, que já não vive sob risco de expulsão.


A lógica por trás do argumento desses migrantes apoiadores de Trump mistura dois conceitos importantes na comunidade brasileira nos EUA. O primeiro é o de que o expatriado aqui se torna capaz de consumir e crescer dependendo apenas do suor de seu rosto. Para aqueles que não têm documentos, e portanto são invisíveis aos olhos do Estado, a ideia de ser um "self made man" é poderosa.


"Essa ideologia de meritocracia, a ideia da cultura americana de fazer por si só, permeia o imaginário da comunidade. E quando o migrante chega aqui e percebe que em duas semanas ganha o suficiente não só para se sustentar como para consumir, essa ideia fica ainda mais forte", afirma a paraense Heloiza Barbosa, de 53 anos, idealizadora do podcast Faxina, que conta histórias de brasileiros que vieram ilegalmente para os Estados Unidos e ganharam a vida com limpeza doméstica. A própria Heloiza trabalhou também como faxineira em Boston, logo que chegou ao país, em meados dos anos 1990.



O segundo conceito é o que Heloiza chama de "discurso do bom imigrante". É a ideia de que não serão denunciados ou expulsos do país "se não causarem problemas, se deixarem de usar até os serviços públicos a que têm direito, se não questionarem caso não sejam pagos conforme o combinado".


Mas Silva, deportado no início do ano, percebeu na pele os limites desse argumento. "A sorte não é para todos", ele diz.

'Deus vai tocar o coração dele'

A brasiliense Simone*, de 40 anos, chegou há 5 anos aos EUA com visto de turista, mas para ficar. Sem documentos, trabalha como faxineira na região de Boston. Evangélica, casada com um brasileiro também indocumentado e mãe de dois filhos nascidos nos EUA, ela é pessoalmente contra Trump, pois vê seu posicionamento em relação à migração como uma ameaça contra sua família.


Mas foi durante um ato numa igreja metodista que ela presenciou uma das defesas mais contundentes de Trump, de uma brasileira também indocumentada no país. "Ela disse que ninguém poderia falar mal do presidente Trump, olhou pra mim e falou: 'Deus vai colocar no coração dele o desejo de legalizar cada um de nós'".


Eleitores cristãos são parte da base eleitoral de Trump, considerado um dos maiores defensores das bandeiras conservadoras desses grupos, especialmente numerosos entre latinos. Às vésperas da eleição, Trump indicou para uma cadeira na Suprema Corte a juíza católica Amy Coney Barrett, que poderá ser o voto decisivo para a derrubada da decisão judicial dos anos 1970 que legalizou o aborto em todo o país.


"Pra mim, a questão do aborto é um divisor de águas. Coloco a vida desses bebês acima da minha questão de migração", afirma Leandro, católico que vai todo domingo à missa das 9 da manhã em uma igreja com cerimônias religiosas em Língua Portuguesa na Flórida

'Macho man'

Entre os migrantes com origem na América Latina, não só uma parcela de brasileiros mostra simpatia por Trump. De acordo com as pesquisas, a despeito de sua posição anti-imigração, ele conta com o apoio de 30% do eleitorado latino.


É certo que nesse grupo há um grande contingente de venezuelanos e cubanos, para quem o discurso anticomunista do presidente tem um apelo especial. Mas as pesquisas em diferentes Estados têm mostrado na verdade um apoio desproporcional de homens latinos a Trump, quando comparados a mulheres de mesma origem.


De acordo com um levantamento de agosto feito pelo Instituto Equis, por exemplo, no Arizona, um dos chamados Estados-pêndulo (onde não há favorecimento histórico a determinado partido), enquanto Trump recebia o apoio de 40% dos homens latinos, apenas 19% das mulheres latinas diziam apoiar o republicano.


Interessado em entender o fenômeno, o jornal The New York Times entrevistou homens de origem mexicana, que apontaram no estilo político de Trump, que inclui elementos de uma masculinidade assertiva e até mesmo agressiva, um traço que os atrai.


O mesmo aspecto surge nas conversas com brasileiros, e nesse caso, a contraparte brasileira de Trump, o presidente Jair Bolsonaro, ajuda a compor esse quadro. "A semelhança entre Bolsonaro e Trump é que eles são eles mesmos, não fazem cena de bom mocinho. Que eu saiba, o Trump vai no cassino, gosta da mulherada, e o Bolsonaro também, fala o que quer, xinga, fala palavrão, não fica fazendo a ceninha do cara engravatadinho, que fala tudo bonitinho. Ele não tem essa etiqueta e acho que é por isso que o povo se identifica", afirma Leandro.


Para Silva, "Bolsonaro é o cara", assim como Trump.


Ciente desse efeito, na semana passada, em um comício na Flórida, Trump afirmou diante do avião presidencial: "me sinto tão poderoso". Na sequência, dançou ao som de Macho Man, do grupo Village People, para delírio da plateia de apoiadores.

domingo, 25 de outubro de 2020

O futuro da imigração..



As sociedades devem manter as portas sempre abertas aos milhões que estão fugindo da violência no mundo?... 


Não se via uma crise global de refugiados desse porte desde o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Mais de 65 milhões de pessoas – o equivalente a vinte por cento da população norte-americana – foram desalojadas ao redor do mundo; dessas, 21 milhões são refugiados. Só na Síria, 6 milhões deixaram suas casas e outros quase cinco deixaram o país.

Tanto a Europa como os EUA estão em uma posição precária: as democracias são frágeis e movimentos de direita pela anti-imigração, fomentados pelo preconceito e pelo medo, estão em ascensão.

No Fórum da Democracia, realizado pelo New York Times em Atenas, na Grécia, em setembro, Roger Cohen, colunista do "New York Times", foi o moderador da discussão sobre imigração entre Stavros Lambrinidis, representante especial da União Europeia para os Direitos Humanos, o ex-primeiro-ministro italiano Mario Monti e Lucas Papademos, ex-primeiro-ministro da Grécia.

A conversa girou basicamente em torno do futuro da imigração e quais as obrigações internacionais – se é que há alguma – de receber bem, assimilar e proteger aqueles que procuram asilo. Segue uma versão editada e condensada do diálogo.


Roger Cohen: Tendo em mente as lições da Segunda Guerra Mundial e a maneira como as portas se fecharam para os refugiados nos anos 1930, o que devem fazer as sociedades, manter as portas sempre abertas aos necessitados? Ou às vezes são obrigadas a fechá-las?

Stavros Lambrinidis: Não. Acho que deve se manter aberta, mas a imigração e o número de refugiados têm de ser controlados. Não pode deixar virar caos. Sob nenhuma hipótese se deve fechar a porta para alguém cujo único crime foi ter nascido numa região pobre ou destruída pela guerra. Ao mesmo tempo, é preciso lidar com as causas desses problemas, do contrário estaremos só amenizando as consequências.

Falamos de crise de refugiados na Europa, mas acho que essa é uma denominação errônea. Acima de tudo é uma crise para milhões de homens, mulheres e crianças que tiveram de deixar seus países, enfrentando todo tipo de dificuldade, inclusive traficantes humanos, para chegar aqui, correndo o risco de se afogarem.

Roger Cohen: Mas eles não são refugiados?

Stavros Lambrinidis: Você é refugiado quando é reconhecido como tal. Eles estão em busca de asilo. Estão deixando seus países por outros, geralmente próximos de onde estão porque, em teoria, pretendem voltar. A segunda grande crise é a que estão enfrentando nos países de onde eles saem. Não podemos nos esquecer que, a princípio, são violações aos direitos humanos – falta de um governo decente, guerra, pobreza, desigualdade, corrupção –, os grandes motivadores desse êxodo.

A União Europeia tem de ser eficaz de duas maneiras: lançando mão de responsabilidades internacionais, na forma de leis, para proteger as pessoas que chegam às suas fronteiras, e fornecer ajuda humanitária, de desenvolvimento e perspectivas para as pessoas antes de elas partirem.
Pierre Terdjman/The New York Times


Roger Cohen: Como isso se aplica à Síria, por exemplo, um país que foi destruído? Ali, a própria ideia da violação de direitos humanos parece quase pitoresca. O que a União Europeia pode fazer para interromper o fluxo de gente desesperada saindo de lá e de outras nações em situação semelhante?

Stavros Lambrinidis: Além de nos esforçarmos para encontrar uma solução diplomática pacífica, estamos dando apoio com milhões de euros a estruturas dentro da Síria – de governo, educação, fornecimento de água –, tudo o que impeça o país de entrar em colapso, de modo que quando estiver pronto para a reconstrução política, terá infraestrutura para tal. Acontece que isso não tem glamour.

Roger Cohen: Não, não tem.

Stavros Lambrinidis: Estamos tentando provar aos milhões de sírios desalojados que, apesar de todo o sofrimento, não estão sozinhos nessa crise. Estamos fazendo de tudo para garantir que quando tudo isso acabar, eles tenham base suficiente para poder reconstruir o país sem ter de depender da caridade de terceiros.

Roger Cohen: Mario Monti, há momentos em que as sociedades ocidentais têm de simplesmente fechar suas portas? As pressões são muito grandes, os movimentos de direita estão ficando cada vez mais barulhentos e o povo parece não estar preparado para aceitar o aumento repentino de estrangeiros entrando na sociedade.

Mario Monti: Se você visitar o museu da imigração de Ellis Island, acaba vendo uma relação, em termos de longo prazo, muito positiva entre imigração e a diversidade, a vibração e o crescimento de um país. Não há dúvida quanto a isso.

Roger Cohen: Então por que essa ideia não pega mais?

Mario Monti: Por causa da evolução de nossas democracias. Talvez a rejeição que muita gente tem aos imigrantes e refugiados tenha ganhado um destaque excessivo. Ela se espalha e conquista a maioria da opinião pública devido à natureza imediatista do discurso político. A política atual nas sociedades democráticas tem de ser conduzida na base dos 140 caracteres de um tuíte ou no trecho de dez segundos de um debate político na TV. Isso cria uma seleção adversa de qualidade, integridade e erudição dos argumentos.

Deixamos nas mãos de determinados países a responsabilidade de lidar, em longo prazo, com a economia, a sociedade, só que eles não mostram uma preferência definitiva pela democracia. Podemos ter o sistema político de governo mais forte e mais íntegro, mas acabamos dilapidando-o com uma competição política mais acirrada e mais superficial.
The New York Times


Da esquerda para a direita, Cohen, Lambrinidis, Monti e Papademos


Roger Cohen: Você quer dizer então que, por causa dessas pressões, a solução é dizer "não" de vez em quando?

Mario Monti: A União Europeia tem d voltar a ser forte o suficiente para dominar essas reações. Num ambiente regulamentado não se pode pertencer a um sistema aberto e decidir, de uma hora para a outra, fechá-lo. Nesse caso, a retaliação seria ainda pior.

Roger Cohen: Sr. Papademos, qual a sua solução para essa questão?

Lucas Papademos: No geral e por princípio, não devemos fechar as portas aos necessitados e perseguidos, ou seja, os dois tipos de imigrantes com que estamos lidando, por motivos humanitários, democráticos, econômicos e legais. Ao mesmo tempo, não acho que seja realista, nem apropriado, manter as portas escancaradas.

Temos de evitar a repetição dos horrores da Segunda Guerra Mundial e, mais recentemente, a tragédia dos inocentes morrendo na Síria e no Mediterrâneo para chegar à nossa costa. Há também obrigações legais que estão sendo esquecidas: a Convenção de Refugiados de 1951, adotada logo após a Segunda Guerra Mundial e corroborada por 145 países, exige que as nações aceitem refugiados e pessoa sem busca de asilo, mesmo que cheguem ali ilegalmente.

A terceira razão por que as portas devem se manter abertas são os benefícios econômicos. Acho que subestimamos a imigração como fator gerador de longo prazo, particularmente relevantes para o continente. Pode reforçar o crescimento econômico graças ao aumento da mão de obra, principalmente em países cuja população está envelhecendo e enfrenta sérios problemas demográficos. Pode também, pelo fato de a maioria dos estrangeiros ser jovem e em idade de trabalhar, servir de respaldo para as finanças públicas e o sistema de seguridade social. Porém, é claro que, em curto prazo, pode haver efeitos adversos.

Por fim, um detalhe que pode ser estranho para muitos de vocês: a imigração pode desempenhar um papel decisivo na inovação e no empreendedorismo. Vi algumas estatísticas recentes que mostram que, na Califórnia, 44 por cento das novas start-ups com valores de pelo menos US$1 bilhão estão associadas a empresas estabelecidas por pessoas não nascidas nos EUA.

Roger Cohen: Muito bem falar de benefícios econômicos de longo prazo, mas o problema é quando acontece algo como em Paris e Nice, ou um ataque com machado como no trem na Alemanha, as pessoas se concentram nessas coisas, pois elas causam pânico. Stavros, em discurso nos EUA, você criticou o país por estar muito preocupado em achar que todo imigrante praticamente pode ser terrorista. Como superar esse medo que agora tomou conta das sociedades ocidentais?

Stavros Lambrinidis: Há duas maneiras de se fazer isso: uma, especialmente nas sociedades baseadas na razão, é pelo menos tentando usar um argumento razoável e falar abertamente sobre os fatos. Quando eu disse isso, nos EUA estávamos discutindo se o país deveria aceitar refugiados sírios. O argumento usado por aqueles que são contra é o do terror. De fato, os EUA aceitaram milhares de refugiados nos últimos anos e descobriu entre eles apenas três que têm potencial de ser ameaça à segurança.

Digo a vocês que o mundo tem de começar a pensar em segurança, como fez com o desenvolvimento há alguns anos, e na palavra mágica: sustentabilidade. Dá realmente para ter uma segurança sustentável se prender milhares de egípcios sem provas de que são terroristas, simplesmente porque acreditam numa religião, num movimento? Você vai radicalizá-los quando saírem da cadeia. Está sabotando o próprio sistema judiciário que, em longo prazo, precisa que seja bem-sucedido e estável. A segurança sustentável, assim como o desenvolvimento, tem de se tornar o novo paradigma da União Europeia.

Josh Haner/The New York Times


Roger Cohen: Mario, o que você diria se a chanceler Angela Merkel fosse vê-lo em Roma e falasse: “Agi bem, aceitei um milhão de refugiados; sem isso, a União Europeia teria rachado ainda mais rapidamente. Acho que vou perder as próximas eleições porque a opinião popular está se levantando contra mim. Fiz a coisa errada?”

Mario Monti: Eu diria a ela: “Angela, veja o seu antecessor, Helmut Kohl; hoje ele é lembrado na história europeia como o homem que instaurou o euro na Alemanha. Superou o obstáculo mais difícil, ou seja, a rejeição mental e psicológica do cidadão alemão comum à nova moeda, que suplantaria o adorado marco alemão. Ao fazer isso, perdeu as eleições de 1998 para Gerhard Schröder que, na época, fez campanha contra a nova moeda."

"Você está mais interessada em fazer mais um governo, o que só adiaria o momento da separação entre você e o poder, ou preferiria entrar para a história europeia e alemã sendo respeitada e com moral alto?".

Roger Cohen: Vimos os britânicos, em resolução extraordinária, votarem a favor da saída da UE. Lucas, até que ponto você teme a dissolução da União Europeia por causa da pressão da imigração em massa?

Lucas Papademos: Estou bastante preocupado porque, no momento, a UE enfrenta várias crises simultâneas, sendo que uma delas ainda se refere à fraqueza econômica. Mas a crise da imigração também é resultados de uma grande divisão entre os países – norte e sul, ocidente e oriente. O fluxo parece ter sido contido de forma razoável, mas se o pacto com a Turquia não for obedecido, se as guerras continuarem ou se o êxodo tiver novos picos, acho que isso tudo pode influir decisivamente como ameaça à coesão da Europa e ao seu futuro.

É muito importante lidar com as preocupações econômicas imediatas do povo – ou seja, o alto nível de desemprego e da desigualdade dentro dos países – e cuidar para que elas não ofusquem os benefícios de longo prazo da imigração.

Para que a política de refugiados seja efetiva, é importante que não só haja uma estratégia eficiente, como também que o fardo seja bem dividido, de modo que Itália e Grécia, que recebem um número muito maior de refugiados e imigrantes por causa da proximidade geográfica, não arquem com as consequências sozinhos. Você acha que há chances, principalmente depois do Brexit, de que a União Europeia, mais particularmente a zona do euro, se dissolva? Eu diria que, embora a probabilidade seja alta, é pouco provável.

Stavros Lambrinidis: Se a Europa pode entrar em colapso por causa de imigração? Minha resposta é um "não" enfático. Fiquei surpreso porque uma das primeiras coisas que os defensores do Brexit repudiaram após o resultado do referendo foi que, de alguma forma, o fluxo de imigrantes no Reino Unido mudaria de forma drástica.

A Europa enfrenta uma crise, sim, mas não de políticas específicas, e sim de valores. Inúmeros economistas de todas as partes do mundo analisaram o euro e disseram que era economicamente inviável, que não podia dar certo – e, no entanto, apesar das sérias crises, continua sendo uma das moedas mais fortes do mundo. Por quê? Porque foi criado como política, com uma base sólida de valores.

Essa ideia de que a Europa era uma união solitária e o fato de acharmos que pertencendo a ela teríamos nossos benefícios nacionais multiplicados fez com que as políticas, inclusive até as que eram consideradas instáveis, perfeitamente capazes de vingar. Por outro lado, quando se pensa na imigração e na política sóbria que define a questão, você imagina que alocar dois milhões de pessoas entre os 28 Estados membros seria coisa fácil.

Roger Cohen: Quando há mais de dois milhões de refugiados na Turquia e eles já representam 20% da população do Líbano.

Stavros Lambrinidis: Não está criando raízes com facilidade. Eu digo que isso é porque hoje temos valores instáveis. A imigração é uma questão global, não europeia, e foi por isso que a discuti quando estive nos EUA. Se você tem que combater a guerra e as violações aos direitos humanos, tem de fazer isso em nível global.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

'Descendentes precisam saber que história da África é tão bonita quanto a da Grécia'



Principal africanólogo brasileiro, diplomata Alberto da Costa e Silva diz que negro não aparece na nossa história 'como realmente foi, um criador, um povoador do Brasil'.

Fernanda da EscóssiaDo Rio de Janeiro para a BBC Brasil


Segundo o acadêmico Alberto da Costa e Silva, Brasil precisa mudar olhar em estudo da África (Foto: Guilherme Gonçalves/ABL)

Quando começou a se interessar pela história da África, o poeta, diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva ouviu: "Por que você, um diplomata, um homem tão letrado, não vai estudar a Grécia?"

Justamente porque todo mundo estudava a Grécia, explica, ele resolveu estudar a África. Hoje, é o principal africanólogo brasileiro, autor de clássicos como A Enxada e a Lança: a África antes dos Portugueses e A Manilha e o Libambo: a África e a Escravidão, de 1500 a 1700. E, aos 84 anos, prepara um novo livro para completar sua trilogia sobre história africana.
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Formado em 1957 pelo Instituto Rio Branco, Costa e Silva serviu em vários países e foi embaixador na Nigéria.

É membro da Academia Brasileira de Letras, autor e organizador de mais de 30 livros. Por sua obra, recebeu em 2014 o Prêmio Camões, o mais prestigiado da língua portuguesa.

Filho do poeta piauiense Antônio Francisco da Costa e Silva, nasceu em São Paulo e viveu no Ceará até aos 12 anos, quando mudou-se para o Rio de Janeiro. Cresceu entre livros e costuma dizer que, como no verso do poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867), seu berço "ao pé da biblioteca se estendia".

Foi entre livros, quadros e esculturas, no apartamento em que guarda lembranças de vários lugares do Brasil e do mundo, que ele recebeu a BBC Brasil às vésperas do Dia da Consciência Negra para falar da história do continente pelo qual se apaixonou.

BBC Brasil: Como o Brasil aprendeu a história da África?

Alberto da Costa e Silva: A história da África durante muito tempo foi uma espécie de capítulo de antropologia e etnografia do continente africano. Eram livros que árabes e europeus escreveram sobre suas viagens. Data do fim da Segunda Guerra Mundial a consolidação a história da África como disciplina à parte, semelhante à história da Idade Média europeia, ou à história da China.

Entre 1945 e 1960 seu estudo começa a ganhar grandes voos, tanto na África quanto na Europa, sobretudo Inglaterra e França. Curiosamente o Brasil esteve ausente disso. Os historiadores brasileiros sempre viam a história das relações Brasil-África com a África figurando como fornecedora de mão de obra escrava para o Brasil, como se o africano que era trazido à força nascesse num navio negreiro.

Era como se o negro surgisse no Brasil, como se fosse carente de história. Nenhum povo é carente de história. E a história da África é uma história extremamente rica e que teve grande importância na história do Brasil, da mesma maneira que a história europeia.

De maneira geral, quando se estuda a história do Brasil, o negro aparece como mão de obra cativa, com certas exceções de grandes figuras, mulatos ou negros que pontuam a nossa história. O negro não aparece como o que ele realmente foi, um criador, um povoador do Brasil, um introdutor de técnicas importantes de produção agrícola e de mineração do ouro.

BBC Brasil: O senhor poderia citar alguns exemplos?

Costa e Silva: Os primeiros fornos de mineração de ferro em Minas Gerais eram africanos. Fizemos uma história de escravidão que foi violentíssima, atroz, das mais violentas das Américas, uma grande ignomínia e motivo de remorso. Começamos agora a ter a noção do que devemos ao escravo como criador e civilizador do Brasil.

Quando o ouro é descoberto em Minas Gerais, o governador de Minas escreve uma carta pedindo que mandassem negros da Costa da Mina, na África, porque "esses negros têm muita sorte, descobrem ouro com facilidade". Os negros da Costa da Mina não tinham propriamente sorte: eles sabiam, tinham a tradição milenar de exploração de ouro, tanto do ouro de bateia dos rios quanto da escavação de minas e corredores subterrâneos. Boa parte da ourivesaria brasileira tem raízes africanas.

Temos de estudar o continente africano não como um capítulo à parte, um gueto. A história da África está incorporada à história do mundo, porque ela foi parte e é parte da história do mundo. Que a história do negro no Brasil não seja isolada, como se o negro tivesse sido um marginal. O negro foi essencial na formação do Brasil.

BBC Brasil: Qual a importância de um personagem como Zumbi?

Costa e Silva: Havia um suplemento juvenil do jornal A Noite, sobre grandes nomes da história, e eu me lembro perfeitamente de um caderno sobre Zumbi. Zumbi está aliado de tal maneira à ideia de liberdade que é difícil escrever sobre ele sem ser apaixonado.

Zumbi não é um nome, é um título da etnia ambundo, significa rei, chefe. Palmares era como um Estado africano recriado no Brasil. Na África era muito comum isso. Em torno de um núcleo de poder forte se aglomeravam vários povos e formavam um novo povo. Isso é uma hipótese.

BBC Brasil: O senhor vê um aumento do interesse dos brasileiros pela questão negra?

Costa e Silva: Tenho a impressão de que todos temos dentro de cada um de nós um africano. Podemos não ter consciência disso, mas é permanente. Há naturalmente hoje em dia uma percepção mais nítida do que é a África, a escola começa a dar uma visão mais clara.

Mas ainda apresenta visões distorcidas. Uma vez uma professora veio me dizer que era absurdo que apresentássemos Cleópatra como uma moça branca, quando ela era negra. É um equívoco isso. Cleópatra não era negra nem mulata. Era grega. Os Ptolomeus, uma dinastia grega, governavam o Egito e não se misturavam.

BBC Brasil: Na África também havia escravos, não?

Costa e Silva: Escravidão houve em todas as culturas no mundo. Todos nós somos descendentes de escravos. Houve escravidão em toda a Europa, na Indonésia, entre os índios americanos, na Inglaterra. Na África havia todos os tipos de escravidão, e até hoje em certas regiões africanas os descendentes de escravos são discriminados. Quase toda a África teve escravidão.

A escravidão transatlântica, da África para as Américas, a nossa, tem uma diferença básica: pela primeira vez era uma escravidão racial. Era um especial aspecto da perversidade dela. No início não, mas a partir de certo momento, passa a ser exclusivamente negra. Foi o maior deslocamento forçado de gente de uma área para outra que a história já conheceu, e o mais feroz.

O Brasil foi o último país das Américas e do Ocidente a abolir a escravidão. O último do mundo foi a Mauritânia (na África), em 1981.

BBC Brasil: Como analisa o racismo hoje no Brasil?

Costa e Silva: Existe racismo, e muitíssimo. No nosso racismo, não temos um partido racista, mas temos repetidas manifestações de racismo no seio da sociedade. É dificílimo, para um negro, ascender socialmente. A discriminação se exerce de forma muitas vezes dissimulada, mas que os marca muito. Mas está mudando. Sinto mudanças.

É importante que os descendentes de africanos saibam que eles têm uma história tão bonita quanto a história da Grécia. Que eles não eram bárbaros, que não são descendentes de escravos. São descendentes de africanos que foram escravizados.

Para mim o importante não é que haja cota na universidade. Acho que tem de haver cota em tudo. Se você vai se candidatar a um cargo de atendente de hotel de primeira classe, se você for negro, você tem dificuldade. O preconceito é discriminatório. Ele não impede você de usar o mesmo banheiro, o mesmo bebedouro, mas dificulta o acesso (do negro) às camadas das classes média e alta.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

PERTO DO INIMIGO: A HISTÓRIA DA JUDIA QUE FOI VIZINHA DE HITLER



Em Munique, a família de Alice Frank Stock dividiu paredes com o líder nazista, em uma convivência de constante medo e tensão

ISABELA BARREIROS PUBLICADO EM 27/09/2020, ÀS 08H00

Alice Frank Stock e o prédio que dividiu com Hitler em Munique - Divulgação/Youtube/Today News US/Wikimedia Commons


No número 16 da avenida Prinzregentplatz, em Munique, na Alemanha, estava um edifício de apartamentos. Ele poderia ser o mais comum possível, no entanto, quem habitava o aposento 13 ou 15 era Adolf Hitler. Do lado dele, vivia uma família judia. Por mais que essa mistura não pudesse funcionar, eles nunca chegaram a conversar.

Tudo isso foi contado por Alice Frank Stock, que hoje tem 101 anos e que, durante as décadas de 1920 e 1930 viveu a poucos metros da figura histórica que causaria um sofrimento terrível para seu povo. Judia, a mulher passou anos morando ao lado do nazista, acompanhando sua rotina.

Nascida em Augsburg, ela se mudou para a capital da Bavária com apenas três meses de idade, em 1918. No edifício que dividia com Hitler, viveu até seus 17 anos, quando foi enviada para estudar na cidade de Lausanne, Suíça. Naquela época, o perigo para judeus aumentava cada vez mais na Alemanha.


Convivência com o inimigo
Hitler discursa em congresso do partido nazista / Crédito: Getty Images



Em entrevista ao jornal britânico Daily Mail, Stock afirma que não chegou a ter contato direto com Hitler. Eles poderiam até se ver, mas não tinham nenhum contato pessoal. “Morávamos em uma casa — uma casa grande — e havia duas entradas. Um era nosso apartamento, o número 14 — o outro era o número 13 ou 15. Era onde Hitler morava”, disse.


“Eu nunca falei com ele. Eu o vi uma ou duas vezes voltando para casa. Seu carro iria parar, dois homens da SS pulariam de cada lado e ele correria para a casa — obviamente aterrorizado com alguém que tentasse matá-lo”, explicou a aposentada.

Hitler havia se mudado para o apartamento em 1929 e, inclusive, a poucos metros da família judia, estava também o local de nascimento do Partido Nazista. O líder chegou até mesmo a deixar o edifício antes deles: em 1934, o Führer se mudou do prédio para se tornar Chanceler; três anos depois, os Stock fugiram para Londres pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial.

Durante o período que eles viveram, de fato, no mesmo quarteirão, inúmeros rumores corriam pelos corredores do bloco. Alice disse que chegou a ver um caixão saindo da casa do nazista em algum momento, mas que era muito difícil conseguir qualquer informação sobre o que se passava ali perto.


“Ouvimos muitos [boatos], da cozinheira e de outros. Vimos um caixão sendo carregado para fora da entrada. Acho que uma sobrinha de Hitler estava morando lá e depois morreu. Especulou-se como e quando ela morreu” afirmou.

Mas ela também explica: “Acho que era verdade que o caixão foi carregado e nele havia uma mulher. Mas nunca houve confirmação — e você não podia falar abertamente”. O caso em questão foi o possível relacionamento de Hitler com sua sobrinha, Geli Raubal, que, de fato, cometeu suicídio dentro do apartamento.

Medo constante
Alice Frank Stock atualmente / Crédito: Divulgação/Youtube/Today News US



Com isso, é possível perceber que, por mais que a convivência fosse “pacífica”, havia ainda algum clima de tensão no ar. Mesmo que Hitler não soubesse que na parede ao lado estava uma família judia, seus membros ainda tinham que ter o maior cuidado possível e não expor-se demais.

A aposentada de 101 anos disse que eles viviam constantemente com medo das represálias, embora o líder ainda estivesse no começo de sua carreira e não os visse, de fato. Ela contou que uma vez, sua cozinheira quase colocou tudo à perder apenas ao falar mais alto que o normal.

“Tínhamos uma cozinheira maravilhosa que era idosa e muito católica — e muito anti-Hitler. Uma vez ela saiu e viu uma foto de Hitler pendurada na parede e disse: ‘Sim, ele deveria ser enforcado, o canalha — mas não assim!'. Eu disse: ‘Você vai colocar todos nós em um campo de concentração!’”, explicou.

Felizmente, a família não sofreu com nenhuma retaliação vinda do líder nazista. A convivência era cheia de nervosismo — apenas para os Stock, e provavelmente foi um alívio ver o homem deixar o local em 1934. Ainda que tivesse o apartamento, o nazista preferia passar seu tempo em outras cidades, visitando o prédio em questão com pouca frequência.

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quarta-feira, 18 de julho de 2018

Mais da metade dos venezuelanos que entraram no Brasil já saiu do país Agência Brasil


Marcelo Camargo / Agência Brasil /
Os venezuelanos buscam abrigo no Brasil fugindo da crise econômica intensa instalada no país vizinho


Dos 127,7 mil imigrantes venezuelanos que entraram no Brasil pelo município de Pacaraima, na região de fronteira de Roraima, no ano passado e neste ano, mais da metade já deixou o país. Dos 68,9 mil que saíram, a maior parte (47,8 mil) fez o caminho por fronteira terrestre e 21,1 mil pegaram voos internacionais.

Os dados foram apresentados na 5ª reunião do Comitê Federal de Assistência Emergencial, realizada nesta segunda-feira (16) no Palácio do Planalto, e divulgados pela Casa Civil.


Dentre os venezuelanos que deixam o país por via terrestre, 66% voltam ao país natal pora Pacaraima; 15% pela Ponte Tancredo Neves, em Foz do Iguaçu, no Paraná; 6% por Guajará-Mirim, em Rondônia; 6% por Uruguaiana, no Rio Grande do Sul; e 7% por outras localidades.

De acordo com os dados divulgados pela Casa Civil, as principais rotas de saída por via aérea são os aeroportos de Guarulhos, em São Paulo (58%); Manaus (15%), Brasília (13%) e do Galeão, no Rio de Janeiro (11%).

Os venezuelanos buscam abrigo no Brasil fugindo da crise econômica intensa instalada no país vizinho. Eles chegam ao Brasil pela fronteira com Roraima.

Pedidos de refúgio e residência

De 2015 a junho deste ano, 56,7 mil venezuelanos procuraram a Polícia Federal para solicitar refúgio ou residência no Brasil.

Nesse período, 35,5 mil pediram refúgio e 11,1 mil solicitaram residência. Além desses, 10,1 mil agendaram atendimento, sendo que 5,9 mil não retornaram.

Interiorização

Ao todo, cerca de 4 mil venezuelanos estão em nove abrigos de Roraima. Até agora, 690 foram levados para as cidades de São Paulo, Manaus, Cuiabá, Rio de Janeiro, Igarassu e Conde, ambas na Paraíba. Está prevista para a próxima semana novas viagen para Brasília, Cuiabá, Rio de Janeiro e São Paulo.

Em abril, o governo deu início a um processo de distribuição de imigrantes venezuelanos concentrados em Roraima para outras unidades da federação, no chamado processo de interiorização.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Nos EUA, um depósito de crianças sem papéis Separadas dos pais e trancadas em gaiolas, elas não podem nem brincar ou receber carinho 18.9k Nomaan Merchant / ASSOCIATED PRESS, O Estado de S.Paulo 19 Junho 2018 | 05h00 Dentro de um armazém antigo no sul do Texas, centenas de crianças esperam, dentro de gaiolas de metal. Uma das celas era ocupada por 20 crianças. Garrafas de água, sacos de batata frita e grandes folhas de papel, que servem de cobertores, se espalham pelo lugar. Uma adolescente contou a uma defensora pública que estava ajudando a cuidar de uma criança pequena que não conhecia, porque a tia da menina estava em outro lugar do armazém. Ela conta que teve de usar seu celular para ensinar às outras crianças com quem dividia a cela como trocar fralda. EUA imigração Armazém no Vale do Rio Grande abriga filhos de imigrantes ilegais pegos cruzando a fronteira entre o México e os EUA Foto: Reuters A Patrulha de Fronteira permitiu que repórteres visitassem a instalação em resposta às críticas contra a política de tolerância zero do governo Trump, que tem resultado na separação de famílias. Os repórteres não foram autorizados a entrevistar as pessoas ou a tirar fotos. + Estados Unidos enviam imigrantes a prisões federais Mais de 1,1 mil pessoas estavam dentro da instalação ampla e escura, dividida em alas para crianças desacompanhadas, adultos sozinhos e mães e pais com filhos. As gaiolas de cada ala têm acessos a áreas comuns e banheiros químicos. A iluminação fica constantemente acesa. Segundo a Patrulha de Fronteira, cerca de 500 menores no local estão acompanhados pelos pais, mas outros 200 estão sozinhos. Muitos dos adultos que cruzam a fronteira sem permissão podem ser acusados de entrada ilegal e levados presos, sendo separados de seus filhos. Cerca de 2,3 mil crianças foram tiradas de seus pais desde que o secretário de Justiça, Jeff Sessions, anunciou a nova política, determinando que os funcionários do Departamento de Segurança Interna encaminhassem todos os casos de entrada ilegal nos EUA para serem processados criminalmente. Igrejas e grupos de defesa dos direitos humanos criticaram duramente a política, chamando-a de desumana. + População imigrante nos EUA superou os 43 milhões, segundo estudo Histórias se espalharam de menores sendo arrancados dos braços dos pais, e estes incapazes de saber para onde seus filhos foram levados. Um grupo de congressistas visitou a mesma instituição no domingo e foi designado para visitar um abrigo onde estão cerca de 1,5 mil crianças, muitas separadas dos pais. No Vale do Rio Grande, no Texas, que é o corredor mais movimentado para aqueles que tentam entrar nos EUA, funcionários da patrulha argumentam que precisam reprimir os imigrantes e separar os adultos das crianças para desencorajar outras pessoas. “Quando você isenta um grupo de pessoas da lei, isso cria um atrativo”, justificou o chefe da patrulha, Manuel Padilla. Os funcionários que administram o local disseram que todos os detidos recebem alimentação adequada, acesso a chuveiros, roupa lavada e assistência médica. A ideia é que as pessoas passem pouco tempo na instalação. Nos termos da legislação dos EUA, crianças devem ser entregues em até três dias aos abrigos financiados pelo Departamento de Saúde. Padilla diz que os funcionários no Vale do Rio Grande permitem que famílias com crianças menores de 5 anos fiquem juntas, na maior parte dos casos. Uma defensora pública, porém, que passou várias horas no local diz ter ficado profundamente perturbada com o que encontrou. Michelle Brane, diretora da Comissão de Mulheres Refugiadas, se encontrou com uma garota de 16 anos que estava cuidando de uma menina mais nova há três dias. A adolescente e as outras pessoas em sua gaiola supunham que a menor tinha 2 anos. Ela contou que, depois que um advogado começou a fazer perguntas, os agentes encontraram a tia da menina e reuniram as duas. Assim, descobriram que a criança tinha 4 anos. Parte do problema era que a menina não falava espanhol, mas k’iche, uma língua indígena da Guatemala. “Ela estava tão traumatizada que não estava falando”, disse Michelle. “Estava apenas encolhida, como se fosse uma bola pequena.” Trauma. Michelle contou que também viu autoridades na instalação – onde não há brinquedos ou livros – repreenderem um grupo de crianças de 5 anos por brincarem dentro de sua gaiola, ordenando que se acalmassem. Mas um garoto próximo da cela não estava brincando com os outros. Segundo Michelle, ele estava quieto, segurando um pedaço de papel que era uma cópia da carteira de identidade de sua mãe. “O governo está literalmente levando as crianças para longe de seus pais e deixando-as em condições inadequadas”, disse a defensora. “Se um dos pais deixasse uma criança em uma gaiola sem supervisão com outra criança de 5 anos, eles seriam responsabilizados.” A chefe da Academia Americana de Pediatria, Colleen Kraft, que visitou um abrigo no Texas, viu uma criança ainda engatinhando que chorava descontroladamente e batia os punhos contra o chão. Os funcionários tentavam consolar a criança, que parecia ter cerca de 2 anos. Ela havia sido tirada de sua mãe na noite anterior. Os funcionários deram a ela livros e brinquedos, mas não podiam segurar ou abraçar a criança para que se acalmasse. “O estresse é esmagador. O foco precisa estar no bem-estar dessas crianças”, disse a médica.


Dentro de um armazém antigo no sul do Texas, centenas de crianças esperam, dentro de gaiolas de metal. Uma das celas era ocupada por 20 crianças. Garrafas de água, sacos de batata frita e grandes folhas de papel, que servem de cobertores, se espalham pelo lugar.

Uma adolescente contou a uma defensora pública que estava ajudando a cuidar de uma criança pequena que não conhecia, porque a tia da menina estava em outro lugar do armazém. Ela conta que teve de usar seu celular para ensinar às outras crianças com quem dividia a cela como trocar fralda.


Armazém no Vale do Rio Grande abriga filhos de imigrantes ilegais pegos cruzando a fronteira entre o México e os EUA Foto: Reuters



A Patrulha de Fronteira permitiu que repórteres visitassem a instalação em resposta às críticas contra a política de tolerância zero do governo Trump, que tem resultado na separação de famílias. Os repórteres não foram autorizados a entrevistar as pessoas ou a tirar fotos.

+ Estados Unidos enviam imigrantes a prisões federais

Mais de 1,1 mil pessoas estavam dentro da instalação ampla e escura, dividida em alas para crianças desacompanhadas, adultos sozinhos e mães e pais com filhos. As gaiolas de cada ala têm acessos a áreas comuns e banheiros químicos. A iluminação fica constantemente acesa.

Segundo a Patrulha de Fronteira, cerca de 500 menores no local estão acompanhados pelos pais, mas outros 200 estão sozinhos. Muitos dos adultos que cruzam a fronteira sem permissão podem ser acusados de entrada ilegal e levados presos, sendo separados de seus filhos.

Cerca de 2,3 mil crianças foram tiradas de seus pais desde que o secretário de Justiça, Jeff Sessions, anunciou a nova política, determinando que os funcionários do Departamento de Segurança Interna encaminhassem todos os casos de entrada ilegal nos EUA para serem processados criminalmente. Igrejas e grupos de defesa dos direitos humanos criticaram duramente a política, chamando-a de desumana.

+ População imigrante nos EUA superou os 43 milhões, segundo estudo

Histórias se espalharam de menores sendo arrancados dos braços dos pais, e estes incapazes de saber para onde seus filhos foram levados. Um grupo de congressistas visitou a mesma instituição no domingo e foi designado para visitar um abrigo onde estão cerca de 1,5 mil crianças, muitas separadas dos pais.

No Vale do Rio Grande, no Texas, que é o corredor mais movimentado para aqueles que tentam entrar nos EUA, funcionários da patrulha argumentam que precisam reprimir os imigrantes e separar os adultos das crianças para desencorajar outras pessoas. “Quando você isenta um grupo de pessoas da lei, isso cria um atrativo”, justificou o chefe da patrulha, Manuel Padilla.

Os funcionários que administram o local disseram que todos os detidos recebem alimentação adequada, acesso a chuveiros, roupa lavada e assistência médica. A ideia é que as pessoas passem pouco tempo na instalação. Nos termos da legislação dos EUA, crianças devem ser entregues em até três dias aos abrigos financiados pelo Departamento de Saúde.

Padilla diz que os funcionários no Vale do Rio Grande permitem que famílias com crianças menores de 5 anos fiquem juntas, na maior parte dos casos. Uma defensora pública, porém, que passou várias horas no local diz ter ficado profundamente perturbada com o que encontrou. Michelle Brane, diretora da Comissão de Mulheres Refugiadas, se encontrou com uma garota de 16 anos que estava cuidando de uma menina mais nova há três dias. A adolescente e as outras pessoas em sua gaiola supunham que a menor tinha 2 anos.

Ela contou que, depois que um advogado começou a fazer perguntas, os agentes encontraram a tia da menina e reuniram as duas. Assim, descobriram que a criança tinha 4 anos. Parte do problema era que a menina não falava espanhol, mas k’iche, uma língua indígena da Guatemala. “Ela estava tão traumatizada que não estava falando”, disse Michelle. “Estava apenas encolhida, como se fosse uma bola pequena.”

Trauma. Michelle contou que também viu autoridades na instalação – onde não há brinquedos ou livros – repreenderem um grupo de crianças de 5 anos por brincarem dentro de sua gaiola, ordenando que se acalmassem. Mas um garoto próximo da cela não estava brincando com os outros. Segundo Michelle, ele estava quieto, segurando um pedaço de papel que era uma cópia da carteira de identidade de sua mãe.

“O governo está literalmente levando as crianças para longe de seus pais e deixando-as em condições inadequadas”, disse a defensora. “Se um dos pais deixasse uma criança em uma gaiola sem supervisão com outra criança de 5 anos, eles seriam responsabilizados.”

A chefe da Academia Americana de Pediatria, Colleen Kraft, que visitou um abrigo no Texas, viu uma criança ainda engatinhando que chorava descontroladamente e batia os punhos contra o chão. Os funcionários tentavam consolar a criança, que parecia ter cerca de 2 anos. Ela havia sido tirada de sua mãe na noite anterior. Os funcionários deram a ela livros e brinquedos, mas não podiam segurar ou abraçar a criança para que se acalmasse. “O estresse é esmagador. O foco precisa estar no bem-estar dessas crianças”, disse a médica.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Imigrantes fazem manifestação e greve de fome para entrar nos EUA Agência Brasi





Com o recrudescimento da política imigratória e a busca por um maior controle na fronteira entre o México e os Estados Unidos, uma manifestação de imigrantes da América Central, que acontece anualmente desde 2010, acabou em conflito, com envio da guarda nacional à fronteira e uma greve de fome de 15 imigrantes.

Os imigrantes, que participam da chamada Via Crucis do Imigrante, protestam no estado de Oaxaca por ainda não terem recebido vistos humanitários temporários. Segundo entidades de defesa humanitária, os vistos foram prometidos pelo presidente do México, Enrique Peña Nieto.


A maioria dos imigrantes é proveniente de Honduras, Guatemala e El Salvador, mas segundo a ONG Povo Sem Fronteiras, os vistos ainda não foram concedidos a todos.

O grupo tinha cerca de mil pessoas quando a viagem começou no final de março, no sul do México. De acordo com a imprensa local, parte deles agora está no estado de Oaxaca, a cerca de mil quilômetros da fronteira com os Estados Unidos.

Agências internacionais que acompanham a caravana relatam que o grupo já teria se separado, e pelo menos 200 pessoas partiram junto a um carregamento de mercadorias, conhecido como La Bestia, chamado localmente de comboio da morte, pelo perigo relacionado à presença de cartéis de drogas e contrabando na região.

Pressão

O México recebe imigrantes de países da América Central, muitos deles com alto grau de violência e presença de cartéis de drogas, que tentam chegar aos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que é pressionado pelo governo de Donald Trump para não "facilitar" a entrada desses imigrantes em território norte-americano.

A pressão já existia na administração de Barack Obama. Entre 2014 e 2017, o México deportou mais de 420 mil pessoas da América Central. Mas o governo Peña Nieto é pressionado também por entidades de direitos humanos para permitir a passagem ou a permanência temporária dos cidadãos centro-americanos.

Agora, com a gestão Trump, a pressão aumentou, inclusive porque uma das diretrizes do governo norte-americano é a construção do muro fronteiriço, projeto pendente de liberação de verbas no Congresso americano.

Manifesto

As caravanas Via Crucis surgiram em 2010, no mesmo ano em que foram encontrados 72 corpos de imigrantes

Espanha resgata 476 imigrantes em travessia no Mediterrâneo em dois dias da América Central e da América do Sul em uma vala comum em Tamaulipas, estado mexicano, próximo à fronteira com o Texas, sul dos Estados Unidos. Na época, sobreviventes contaram que os imigrantes foram mortos ao se recusar a pagar a cartéis e coiotes da região, para a travessia.

Desde então, são realizadas anualmente manifestações com a presença de entidades e coletivos locais de apoio humanitário.

Em abril, antes do início da caravana, o presidente Trump classificou o governo mexicano como "permissivo" em relação à entrada de grandes fluxos "de drogas e de pessoas nos Estados Unidos".

O governo norte-americano já confirmou a presença de 2,4 mil homens da guarda nacional na fronteira do Texas, Arizona e Califórnia, para prevenir a chega de imigrantes.

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