segunda-feira, 16 de maio de 2022

Imigração



O processo de imigração no Brasil intensificou-se a partir de 1808, quando um número expressivo de imigrantes europeus chegou ao país.
A imigração no Brasil ganhou força durante o século XIX


A marca da imigração no Brasil pode ser percebida especialmente na cultura e na economia das duas mais ricas regiões brasileiras: Sudeste e Sul.
A colonização foi o objetivo inicial da imigração no Brasil, visando ao povoamento e à exploração da terra por meio de atividades agrárias. A criação das colônias estimulou o trabalho rural. Deve-se aos imigrantes a implantação de novas e melhores técnicas agrícolas, como a rotação de culturas, assim como o hábito de consumir mais legumes e verduras. A influência cultural do imigrante também é notável.

História

A imigração teve início no Brasil a partir de 1530, quando começou a estabelecer-se um sistema relativamente organizado de ocupação e exploração da nova terra. A tendência acentuou-se a partir de 1534, quando o território foi dividido em capitanias hereditárias e se formaram núcleos sociais importantes em São Vicente e Pernambuco. Foi um movimento ao mesmo tempo colonizador e povoador, pois contribuiu para formar a população que se tornaria brasileira, sobretudo num processo de miscigenação que incorporou portugueses, negros e indígenas.

Imigração portuguesa

A criação do governo-geral em 1549 atraiu muitos portugueses para a Bahia. A partir de então, a migração tornou-se mais constante. O movimento de portugueses para o Brasil foi relativamente pequeno no século XVI, mas cresceu durante os cem anos seguintes e atingiu cifras expressivas no século XVIII. Embora o Brasil fosse, no período, um domínio de Portugal, esse processo tinha, na realidade, sentido de imigração.
A descoberta de minas de ouro e de diamantes em Minas Gerais foi o grande fator de atração migratória. Calcula-se que nos primeiros cinquenta anos do século XVIII entraram só em Minas, mais de 900.000 pessoas. No mesmo século, registra-se outro movimento migratório: o de açorianos para Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Amazônia, estados em que fundaram núcleos que mais tarde se tornaram cidades prósperas.

Os colonos, nos primeiros tempos, estabeleceram contato com uma população indígena em constante nomadismo. Os portugueses, embora possuidores de conhecimentos técnicos mais avançados, tiveram que aceitar numerosos valores indígenas indispensáveis à adaptação ao novo meio. O legado indígena tornou-se um elemento da formação do brasileiro. A nova cultura incorporou o banho de rio, o uso da mandioca na alimentação, cestos de fibras vegetais e um numeroso vocabulário nativo, principalmente tupi, associado às coisas da terra: na toponímia, nos vegetais e na fauna, por exemplo. As populações indígenas não participaram inteiramente, porém, do processo de agricultura sedentária implantado, pois seu padrão de economia envolvia a constante mudança de um lugar para outro. Daí haver o colono recorrido à mão de obra africana.

Elemento africano

Surgiu assim o terceiro grupo importante que participaria da formação da população brasileira: o negro africano. É impossível precisar o número de escravos trazidos durante o período do tráfico negreiro, do século XVI ao XIX, mas admite-se que foram cerca de 4 milhões de negros trazidos da África para serem escravizados. O negro africano contribuiu para o desenvolvimento populacional e econômico do Brasil e tornou-se, pela mestiçagem, parte inseparável de seu povo. Os africanos espalharam-se por todo o território brasileiro, em engenhos de açúcar, fazendas de criação, arraiais de mineração, sítios extrativos, plantações de algodão, fazendas de café e áreas urbanas. Sua presença projetou-se em toda a formação humana e cultural do Brasil com técnicas de trabalho, música e danças, práticas religiosas, alimentação e vestimentas.

Espanhóis, franceses, judeus

A entrada de estrangeiros no Brasil era proibida pela legislação portuguesa no período colonial, mas isso não impediu que chegassem espanhóis entre 1580 e 1640, quando as duas coroas estiveram unidas; judeus (originários, sobretudo da península ibérica), ingleses, franceses e holandeses. Esporadicamente, viajavam para o Brasil cientistas, missionários, navegantes e piratas ingleses, italianos ou alemães.

Imigração no século XIX

A imigração propriamente dita verificou-se a partir de 1808, vésperas da independência, quando instalou-se um permanente fluxo de europeus para o Brasil, que se acentuou com a fundação da colônia de Nova Friburgo, na província do Rio de Janeiro, em 1818, e a de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, em 1824. Dois mil suíços e mil alemães radicaram-se no Brasil nessa época, incentivados pela abertura dos portos às nações amigas. Outras tentativas de assentar irlandeses e alemães, especialmente no Nordeste, fracassaram completamente. Apesar de autorizada a concessão de terras a estrangeiros, o latifúndio impedia a implantação da pequena propriedade rural e a escravidão obstaculizava o trabalho livre assalariado.
Na caracterização do processo de imigração no Brasil encontram-se três períodos que correspondem respectivamente ao auge, ao declínio e à extinção da escravidão.

O primeiro período vai de 1808, quando era livre a importação de africanos, até 1850, quando decretou-se a proibição do tráfico. De 1850 a 1888, o segundo período é marcado por medidas progressivas de extinção da escravatura (Lei do Ventre Livre, Lei dos Sexagenários, alforrias e, finalmente, a Lei Áurea), em decorrência do que as correntes migratórias passaram a se dirigir para o Brasil, sobretudo para as áreas onde era menos importante o braço escravo. O terceiro período, que durou até meados do século XX, começou em 1888, quando, extinta a escravidão, o trabalho livre ganhou expressão social e a imigração cresceu notavelmente, de preferência para o Sul, mas também em São Paulo, onde até então a lavoura cafeeira se baseava no trabalho escravo.
Após a abolição, em apenas dez anos (de 1890 a 1900) entraram no Brasil mais de 1,4 milhão de imigrantes, o dobro do número de entradas nos oitenta anos anteriores (1808-1888).

Acentua-se também a diversificação por nacionalidades das correntes migratórias, fato que já ocorria nos últimos anos do período anterior. No século XX, o fluxo migratório apresentou irregularidades, em decorrência de fatores externos -- as duas guerras mundiais, a recuperação europeia no pós-guerra, a crise nipônica -- e, igualmente, devido a fatores internos. No começo do século XX, por exemplo, assinalou-se em São Paulo uma saída de imigrantes, sobretudo italianos, para a Argentina. Na mesma época verifica-se o início da imigração nipônica, que alcançaria, em cinquenta anos, grande significação. No recenseamento de 1950, os japoneses constituíam a quarta colônia no Brasil em número de imigrantes, com 10,6% dos estrangeiros recenseados.

Distribuição do imigrante


Distinguem-se dois tipos de distribuição do imigrante no país, com efeitos nos processos de assimilação. Pode-se chamar o primeiro tipo de "concentração", em que os imigrantes se localizam em colônias, como no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Nesse caso, os imigrantes não mantêm contato, nos primeiros tempos, com os nacionais, mas a aproximação ocorre à medida que a colonização cresce e surge a necessidade de comercialização dos produtos da colônia. O segundo tipo, que se pode chamar de "dispersão", ocorreu nas fazendas de café de São Paulo e nas cidades, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo.

Nessas áreas, o imigrante, desde a chegada, mantinha-se em contato com a população nacional, o que facilitava sua assimilação.
Os principais grupos de imigrantes no Brasil são portugueses, italianos, espanhóis, alemães e japoneses, que representam mais de oitenta por cento do total. Até o fim do século XX, os portugueses aparecem como grupo dominante, com mais de trinta por cento, o que é natural, dada sua afinidade com a população brasileira. São os italianos, em seguida, o grupo que tem maior participação no processo migratório, com quase trinta por cento do total, concentrados, sobretudo no estado de São Paulo, onde se encontra a maior colônia italiana do país. Seguem-se os espanhóis, com mais de dez por cento, os alemães, com mais de cinco, e os japoneses, com quase cinco por cento do total de imigrantes.

Contribuição do imigrante

No processo de urbanização, assinala-se a contribuição do imigrante, ora com a transformação de antigos núcleos em cidades (São Leopoldo, Novo Hamburgo, Caxias, Farroupilha, Itajaí, Brusque, Joinville, Santa Felicidade etc.), ora com sua presença em atividades urbanas de comércio ou de serviços, com a venda ambulante, nas ruas, como se deu em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Outras colônias fundadas em vários pontos do Brasil ao longo do século XIX se transformaram em importantes centros urbanos. É o caso de Holambra SP, criada pelos holandeses; de Blumenau SC, estabelecida por imigrantes alemães liderados pelo médico Hermann Blumenau; e de Americana SP, originalmente formada por confederados emigrados do sul dos Estados Unidos em consequência da guerra de secessão. Imigrantes alemães se radicaram também em Minas Gerais, nos atuais municípios de Teófilo Otoni e Juiz de Fora, e no Espírito Santo, onde hoje é o município de Santa Teresa.
Em todas as colônias, ressalta igualmente o papel desempenhado pelo imigrante como introdutor de técnicas e atividades que se difundiram em torno das colônias. Ao imigrante devem-se ainda outras contribuições em diferentes setores da atividade brasileira.

Uma das mais significativas apresenta-se no processo de industrialização dos estados da região Sul do país, onde o artesanato rural nas colônias cresceu até transformar-se em pequena ou média indústria. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, imigrantes enriquecidos contribuíram com a aplicação de capitais nos setores produtivos.
A contribuição dos portugueses merece destaque especial, pois sua presença constante assegurou a continuidade de valores que foram básicos na formação da cultura brasileira.

Os franceses influíram nas artes, literatura, educação e nos hábitos sociais, além dos jogos hoje incorporados à lúdica infantil. Especialmente em São Paulo, é grande a influência dos italianos na arquitetura. A eles também se deve uma pronunciada influência na culinária e nos costumes, estes traduzidos por uma herança na área religiosa, musical e recreativa.
Os alemães contribuíram na indústria com várias atividades e, na agricultura, trouxeram o cultivo do centeio e da alfafa. Os japoneses trouxeram a soja, bem como a cultura e o uso de legumes e verduras. Os libaneses e outros árabes divulgaram no Brasil sua rica culinária.

Imigração no Brasil

O processo de imigração no Brasil intensificou-se a partir de 1808, quando um número expressivo de imigrantes europeus chegou ao país. A imigração no Brasil ganhou força durante o século XIX A imigração no Brasil ganhou força durante o século XIX Imprimir Texto: A+ A- PUBLICIDADE A marca da imigração no Brasil pode ser percebida especialmente na cultura e na economia das duas mais ricas regiões brasileiras: Sudeste e Sul. 

A colonização foi o objetivo inicial da imigração no Brasil, visando ao povoamento e à exploração da terra por meio de atividades agrárias. A criação das colônias estimulou o trabalho rural. Deve-se aos imigrantes a implantação de novas e melhores técnicas agrícolas, como a rotação de culturas, assim como o hábito de consumir mais legumes e verduras. A influência cultural do imigrante também é notável. História A imigração teve início no Brasil a partir de 1530, quando começou a estabelecer-se um sistema relativamente organizado de ocupação e exploração da nova terra. 


A tendência acentuou-se a partir de 1534, quando o território foi dividido em capitanias hereditárias e se formaram núcleos sociais importantes em São Vicente e Pernambuco. Foi um movimento ao mesmo tempo colonizador e povoador, pois contribuiu para formar a população que se tornaria brasileira, sobretudo num processo de miscigenação que incorporou portugueses, negros e indígenas. Imigração portuguesa A criação do governo-geral em 1549 atraiu muitos portugueses para a Bahia. A partir de então, a migração tornou-se mais constante. O movimento de portugueses para o Brasil foi relativamente pequeno no século XVI, mas cresceu durante os cem anos seguintes e atingiu cifras expressivas no século XVIII. Embora o Brasil fosse, no período, um domínio de Portugal, esse processo tinha, na realidade, sentido de imigração. 


A descoberta de minas de ouro e de diamantes em Minas Gerais foi o grande fator de atração migratória. Calcula-se que nos primeiros cinquenta anos do século XVIII entraram só em Minas, mais de 900.000 pessoas. No mesmo século, registra-se outro movimento migratório: o de açorianos para Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Amazônia, estados em que fundaram núcleos que mais tarde se tornaram cidades prósperas. Os colonos, nos primeiros tempos, estabeleceram contato com uma população indígena em constante nomadismo. Os portugueses, embora possuidores de conhecimentos técnicos mais avançados, tiveram que aceitar numerosos valores indígenas indispensáveis à adaptação ao novo meio. O legado indígena tornou-se um elemento da formação do brasileiro. A nova cultura incorporou o banho de rio, o uso da mandioca na alimentação, cestos de fibras vegetais e um numeroso vocabulário nativo, principalmente tupi, associado às coisas da terra: na toponímia, nos vegetais e na fauna, por exemplo. As populações indígenas não participaram inteiramente, porém, do processo de agricultura sedentária implantado, pois seu padrão de economia envolvia a constante mudança de um lugar para outro. Daí haver o colono recorrido à mão de obra africana. Elemento africano Surgiu assim o terceiro grupo importante que participaria da formação da população brasileira: o negro africano. É impossível precisar o número de escravos trazidos durante o período do tráfico negreiro, do século XVI ao XIX, mas admite-se que foram cerca de 4 milhões de negros trazidos da África para serem escravizados. O negro africano contribuiu para o desenvolvimento populacional e econômico do Brasil e tornou-se, pela mestiçagem, parte inseparável de seu povo. Os africanos espalharam-se por todo o território brasileiro, em engenhos de açúcar, fazendas de criação, arraiais de mineração, sítios extrativos, plantações de algodão, fazendas de café e áreas urbanas. Sua presença projetou-se em toda a formação humana e cultural do Brasil com técnicas de trabalho, música e danças, práticas religiosas, alimentação e vestimentas. 


Espanhóis, franceses, judeus A entrada de estrangeiros no Brasil era proibida pela legislação portuguesa no período colonial, mas isso não impediu que chegassem espanhóis entre 1580 e 1640, quando as duas coroas estiveram unidas; judeus (originários, sobretudo da península ibérica), ingleses, franceses e holandeses. Esporadicamente, viajavam para o Brasil cientistas, missionários, navegantes e piratas ingleses, italianos ou alemães. Imigração no século XIX A imigração propriamente dita verificou-se a partir de 1808, vésperas da independência, quando instalou-se um permanente fluxo de europeus para o Brasil, que se acentuou com a fundação da colônia de Nova Friburgo, na província do Rio de Janeiro, em 1818, e a de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, em 1824. Dois mil suíços e mil alemães radicaram-se no Brasil nessa época, incentivados pela abertura dos portos às nações amigas. Outras tentativas de assentar irlandeses e alemães, especialmente no Nordeste, fracassaram completamente. Apesar de autorizada a concessão de terras a estrangeiros, o latifúndio impedia a implantação da pequena propriedade rural e a escravidão obstaculizava o trabalho livre assalariado. Na caracterização do processo de imigração no Brasil encontram-se três períodos que correspondem respectivamente ao auge, ao declínio e à extinção da escravidão. O primeiro período vai de 1808, quando era livre a importação de africanos, até 1850, quando decretou-se a proibição do tráfico. De 1850 a 1888, o segundo período é marcado por medidas progressivas de extinção da escravatura (Lei do Ventre Livre, Lei dos Sexagenários, alforrias e, finalmente, a Lei Áurea), em decorrência do que as correntes migratórias passaram a se dirigir para o Brasil, sobretudo para as áreas onde era menos importante o braço escravo. 

O terceiro período, que durou até meados do século XX, começou em 1888, quando, extinta a escravidão, o trabalho livre ganhou expressão social e a imigração cresceu notavelmente, de preferência para o Sul, mas também em São Paulo, onde até então a lavoura cafeeira se baseava no trabalho escravo. Após a abolição, em apenas dez anos (de 1890 a 1900) entraram no Brasil mais de 1,4 milhão de imigrantes, o dobro do número de entradas nos oitenta anos anteriores (1808-1888). Acentua-se também a diversificação por nacionalidades das correntes migratórias, fato que já ocorria nos últimos anos do período anterior. No século XX, o fluxo migratório apresentou irregularidades, em decorrência de fatores externos -- as duas guerras mundiais, a recuperação europeia no pós-guerra, a crise nipônica -- e, igualmente, devido a fatores internos. No começo do século XX, por exemplo, assinalou-se em São Paulo uma saída de imigrantes, sobretudo italianos, para a Argentina. Na mesma época verifica-se o início da imigração nipônica, que alcançaria, em cinquenta anos, grande significação. No recenseamento de 1950, os japoneses constituíam a quarta colônia no Brasil em número de imigrantes, com 10,6% dos estrangeiros recenseados. Distribuição do imigrante Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;) Distinguem-se dois tipos de distribuição do imigrante no país, com efeitos nos processos de assimilação. Pode-se chamar o primeiro tipo de "concentração", em que os imigrantes se localizam em colônias, como no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Nesse caso, os imigrantes não mantêm contato, nos primeiros tempos, com os nacionais, mas a aproximação ocorre à medida que a colonização cresce e surge a necessidade de comercialização dos produtos da colônia. O segundo tipo, que se pode chamar de "dispersão", ocorreu nas fazendas de café de São Paulo e nas cidades, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo. Nessas áreas, o imigrante, desde a chegada, mantinha-se em contato com a população nacional, o que facilitava sua assimilação. 


Os principais grupos de imigrantes no Brasil são portugueses, italianos, espanhóis, alemães e japoneses, que representam mais de oitenta por cento do total. Até o fim do século XX, os portugueses aparecem como grupo dominante, com mais de trinta por cento, o que é natural, dada sua afinidade com a população brasileira. São os italianos, em seguida, o grupo que tem maior participação no processo migratório, com quase trinta por cento do total, concentrados, sobretudo no estado de São Paulo, onde se encontra a maior colônia italiana do país. Seguem-se os espanhóis, com mais de dez por cento, os alemães, com mais de cinco, e os japoneses, com quase cinco por cento do total de imigrantes. Contribuição do imigrante No processo de urbanização, assinala-se a contribuição do imigrante, ora com a transformação de antigos núcleos em cidades (São Leopoldo, Novo Hamburgo, Caxias, Farroupilha, Itajaí, Brusque, Joinville, Santa Felicidade etc.), ora com sua presença em atividades urbanas de comércio ou de serviços, com a venda ambulante, nas ruas, como se deu em São Paulo e no Rio de Janeiro. Outras colônias fundadas em vários pontos do Brasil ao longo do século XIX se transformaram em importantes centros urbanos. É o caso de Holambra SP, criada pelos holandeses; de Blumenau SC, estabelecida por imigrantes alemães liderados pelo médico Hermann Blumenau; e de Americana SP, originalmente formada por confederados emigrados do sul dos Estados Unidos em consequência da guerra de secessão. Imigrantes alemães se radicaram também em Minas Gerais, nos atuais municípios de Teófilo Otoni e Juiz de Fora, e no Espírito Santo, onde hoje é o município de Santa Teresa. Em todas as colônias, ressalta igualmente o papel desempenhado pelo imigrante como introdutor de técnicas e atividades que se difundiram em torno das colônias. Ao imigrante devem-se ainda outras contribuições em diferentes setores da atividade brasileira. Uma das mais significativas apresenta-se no processo de industrialização dos estados da região Sul do país, onde o artesanato rural nas colônias cresceu até transformar-se em pequena ou média indústria. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, imigrantes enriquecidos contribuíram com a aplicação de capitais nos setores produtivos. A contribuição dos portugueses merece destaque especial, pois sua presença constante assegurou a continuidade de valores que foram básicos na formação da cultura brasileira. 

Os franceses influíram nas artes, literatura, educação e nos hábitos sociais, além dos jogos hoje incorporados à lúdica infantil. Especialmente em São Paulo, é grande a influência dos italianos na arquitetura. A eles também se deve uma pronunciada influência na culinária e nos costumes, estes traduzidos por uma herança na área religiosa, musical e recreativa. Os alemães contribuíram na indústria com várias atividades e, na agricultura, trouxeram o cultivo do centeio e da alfafa. Os japoneses trouxeram a soja, bem como a cultura e o uso de legumes e verduras. Os libaneses e outros árabes divulgaram no Brasil sua rica culinária.

domingo, 27 de junho de 2021

As mudanças na Lei abriram as portas para que mais netos e netas possam solicitar a nacionalidade portuguesa 🙂





Nacionalidade portuguesa para netos


As recentes mudanças à Lei de Nacionalidade (Lei nº 37/81) abriram as portas para que mais pessoas possam solicitar a nacinalidade. Se você é neto ou neta de português e deseja conquistar o passaporte da União Europeia, responda este formulário. Através dele iremos ajudá-lo nessa conquista!

- Não há custos associados ao preenchimento deste formulário.
- É importante que o neto ou neta do português originário esteja vivo.
- Daremos resposta no prazo de 30 dias. É importante ficar atento à caixa de SPAM do seu email.
- Os seus dados estão seguros. Você pode acessar a nossa política de privacidade aqui.

A Martins Castro possui ampla experiência em processos de nacionalidade portuguesa. Com sede em Lisboa e formada por advogados e consultores (genealogistas altamente qualificados) já auxiliamos dezenas de clientes brasileiros na conquista da dupla nacionalidade.

Para saber mais sobre este tipo de cidadania portuguesa, acesse o nosso site.
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Você é neto, bisneto ou trineto de um português ou portuguesa?
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Quais os documentos que você tem desse português/portuguesa? (certidão de nascimento, casamento ou óbito)?
Qual o nome completo do português/portuguesa?
Você, por acaso, sabe o nome dos pais desse português/portuguesa?
Use esse espaço para falar sobre tudo o que sabe do português/portuguesa (local de origem: cidade, bairro, ilha, concelho, sobrenomes e outras memórias):
Faça o upload dos documentos do português (certidões de nascimento, casamento ou óbito, cartas, fotografias ou outros documentos disponíveis relacionados ao português/portuguesa):
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quinta-feira, 24 de junho de 2021

Governo restringe entrada de estrangeiros no Brasil para evitar novas variantes


Portaria proíbe voos internacionais com destino/origem ou trânsito pela Irlanda do Norte, Índia, Reino Unido e África do Sul
Por AGÊNCIA BRASIL
24/06/21 - 11h07



Estrangeiros deverão seguir algumas regras para entrar em território nacional

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil


Portaria interministerial publicada no Diário Oficial da União de nesta quinta-feira (24) restringe, em caráter temporário e excepcional, a entrada de estrangeiros no país, conforme recomendação feita pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Veja o documento completo. O objetivo é impedir a entrada de pessoas contaminadas por variantes do novo coronavírus.

No final de maio, a Anvisa enviou aos ministérios que assinam a portaria (Casa Civil, Justiça e Saúde) algumas sugestões de regulamentação de medidas de contenção da entrada de novas variantes do novo coronavírus. Entre as sugestões estava a de suspensão de algumas exceções previstas para a entrada de estrangeiros, em especial relativas ao ingresso de trabalhadores marítimos de embarcações e plataformas oriundos de países onde essas variantes estão circulando.

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Pela sugestão da Anvisa, os estrangeiros procedentes desses países ficariam impedidos de ingresso no Brasil, caso não cumprissem determinados protocolos e requisitos; e os brasileiros em viagem de retorno desses países precisariam necessariamente cumprir quarentena de 14 dias na cidade de desembarque.

Regras

Seguindo essas orientações, a Portaria nº 655, publicada nesta quinta-feira, além de restringir a entrada de estrangeiros de qualquer nacionalidade – por rodovias, outros meios terrestres ou por transporte aquaviário – proíbe, em caráter temporário, voos internacionais tanto com destino quanto com origem ou passagem pelo Reino Unido, a Irlanda do Norte, África do Sul e Índia.

A portaria, no entanto, apresenta diversas situações consideradas excepcionais, o que garante direito de ingresso no país de estrangeiros, desde que seguindo protocolos e requisitos migratórios como a apresentação de documentos comprobatórios de realização de teste de identificação da covid-19. Entre as situações em que haverá autorização para ingresso no país está a operação de voos de cargas, manipuladas por trabalhadores paramentados com equipamentos de proteção individual (EPIs) e demais requisitos e protocolos descritos no documento.

As restrições descritas pela portaria não serão aplicadas em casos de tráfego de residentes fronteiriços em cidades gêmeas, tráfego de transporte rodoviário de cargas e na execução de ações humanitárias e de assistência emergencial para acolhimento e regularização migratória.

A portaria acrescenta que as medidas não se aplicam a imigrante com residência de caráter definitivo, por prazo determinado ou indeterminado, no território brasileiro; profissional estrangeiro em missão a serviço de organismo internacional, desde que identificado; funcionário estrangeiro acreditado junto ao governo brasileiro; e estrangeiros em situações específicas como cônjuges, companheiros, filhos, pais ou curadores de brasileiro.

Também é autorizado o ingresso de pessoas com autorização do governo brasileiro, tendo em vista o interesse público ou questões humanitárias, e portadores de Registro Nacional Migratório. Por fim, a portaria apresenta penalidades previstas para aqueles que descumprirem as medidas. Entre as penalidades estão responsabilizações civil, administrativa e penal; repatriação; deportação; e inabilitação de pedido de refúgio.

sábado, 15 de maio de 2021

São vestígios humanos dos tempos em que Portugal se aventurou pelo mundo. Descubra 9 povos que desc endem dos portugueses.






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Devido ao nosso historial de navegação, existem atualmente diversos povos cuja origem é portuguesa. A maioria destas comunidades foram criadas por marinheiros portugueses que ficaram por terras estrangeiras e que, com o tempo e os casamentos entre pessoas da mesma comunidade, criaram povos cuja origem é indubitavelmente portuguesa. Fique a conhecer alguns destes povos:


1. Kristang, Malásia
Kristang, Malásia

O nome deste povo deriva de “cristão”, o que é mais um atestado da sua origem, já que esta é uma comunidade que deriva maioritariamente de cristãos portugueses que chegaram a Malaca, na Malásia, durante o século XVI. Esta comunidade tem inclusive uma língua própria, o papiá kristang, que ainda hoje é falado em Malaca.

Pode-se também encontrar falantes deste dialeto em locais como Singapura, Reino Unido e até Perth, na Austrália, já que este dialeto foi levado por emigrantes Kristang para essas regiões.

2. Portugueses no Suriname
Suriname

Durante o século XIX (mais concretamente na segunda metade de 1800), ocorreu a chegada dos primeiros portugueses ao território do Suriname. O destino destes portugueses era a Guiana, e pensa-se que eram maioritariamente madeirenses, que foram transacionados como escravos para a Guiana Inglesa.



Alguns relatos dizem que, no entanto, cerca de 500 madeirenses chegaram ao Suriname em 1853 e que, após a abolição da escravatura, alguns anos mais tarde, estes homens decidiram permanecer no Suriname enquanto homens livres.

Ainda hoje existem ecos destes madeirenses, que deram origem a um pequeno povo que ainda hoje tem apelidos como Gouveia, Miranda, Correia, Gonsalves e Texeira. O idioma crioulo Sranan Tongo tem também influência portuguesa, sendo ainda usado por algumas comunidades.

3. Mardicas, na Indonésia
Indonésia

Os Mardicas (ou, em holandês, Mardijkers) foram um povo cuja origem era portuguesa, já que descendiam de escravos dos portugueses (que, por sua vez, tinham também origem nacional). O nome Mardica originou-se a partir do sânscrito Mahardahika, termo usado para descrever escravos que foram libertados.


Durante anos, a comunidade Mardica, que era cristã, falou um crioulo de origem portuguesa, que acabou por influenciar a língua indonésia. Atualmente, os Mardicas já não existem, e a língua já não é utilizada. Sobrevivem, no entanto, alguns apelidos de origem portuguesa e algumas canções em crioulo.

4. Bayingyi, na Birmânia
Bayingyis

Este povo teve a sua origem em portugueses (especialmente mercenários) que chegaram à antiga Birmânia durante os séculos XVI e XVII. Os Bayingyi eram cristãos, ao contrário dos restantes povos da região, e tinham traços marcadamente europeus, como olhos e pele mais clara.

Bayingyi deriva da palavra árabe “fheringi”, termo usado para descrever qualquer pessoa de origem europeia. Nos dias de hoje, os Baryingyi ainda existem, embora os traços físicos distintivos não estejam tão presentes na comunidade como estavam antigamente. A cultura e a religião, no entanto, permanecem como pilares sólidos deste povo.

5. Comunidade Portuguesa em Aceh, Indonésia
Criança de Lamno, Indonésia

Numa cidade chamada Lamno, na Indonésia (região do Aceh), existe uma pequena comunidade descendente de portugueses, conhecida como os “mata biru” (que significa “olhos azuis”, já que uma característica distintiva de muitos membros desta comunidade são precisamente os olhos desta cor).

Hoje em dia, a comunidade é muito reduzida, já que o tsunami de 2004 devastou a região e reduziu a população mata biru a uma ou duas dezenas de pessoas. Esta comunidade, apesar de aceitar a sua ascendência portuguesa, converteu-se ao islamismo há muitos séculos.

6. Luso descendentes no Senegal
Ziguinchor

Na cidade de Ziguichor, no Senegal, existe uma comunidade de dezenas de milhares de pessoas com apelidos de origem portuguesa e que têm como língua um crioulo português, que derivou do crioulo da Guiné-Bissau. Existe até um Centro da Língua Portuguesa em Ziguichor, tendo até alguns serviços públicos adotado a nossa língua como língua oficial.

7. Burghers Portugueses, no Sri Lanka
Burghers

Hoje é conhecida como Sri Lanka, mas nos tempos dos descobrimentos era o Ceilão. Aqui, os portugueses deram origem a um povo chamado Burghers Portugueses (e que são assim chamados para se diferenciarem dos Burghers, de origem cingalesa e holandesa).

Falavam um crioulo de origem portuguesa que, infelizmente, é hoje apenas uma linguagem falada, que se concentra principalmente nas províncias de Batticaloa e Trincomalee. Existem ainda muitos apelidos portugueses, como Salgado, Fonseca, Silva e Pereira. Muita da população emigrou para o Canadá. Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia.

8. Luso-indianos na Índia
Basílica do Bom Jesus (Goa)

Numa pequena vila indiana chamada Korlai, no distrito de Raigad, existe um crioulo (conhecido como Kristi) que ainda hoje é falado por cerca de mil pessoas. O nome deste dialeto deriva da palavra “Cristo”. Os falantes, no entanto, chamam-lhe “nou ling”, ou “a nossa língua”.

Nesta vila, existem ainda ruínas de um forte português, mas a maior prova da existência de um povo cuja origem é portuguesa é a própria língua, já que existem hoje poucos luso-descendentes.

9. Mardicas de Tugu, na Indonésia
Tugu

Voltando à Indonésia, podemos encontrar na vila de Tugu, na Ilha de Java, vestígios de um povo de origem portuguesa que em tempos era dominante aqui e do qual hoje apenas existem canções que usam o crioulo que por estes era falado.

Apesar de Portugal nunca ter colonizado esta região, os portugueses e seus descendentes (Mardicas) foram levados para esta zona como escravos dos holandeses, e acabaram por casar tanto entre eles próprios como com holandeses, criando uma comunidade que se manteve viva até há cerca de 40 anos atrás (altura em que o último falante deste crioulo faleceu). Hoje, apenas restam as influências na língua, nos costumes, na música e nos nomes.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Documentário brasileiro sobre a imigração italiana estreia na Netflix e vai ser exibido no festival de Trento

  
Imagem da cidade italiana de Rovereto, que aparece no documentário "Legado Italiano"(Foto Divulgação)

Por Jornalista Desiderio Peron
-31 de março de 2021 15:02


Acaba de estrear no catálogo da Netflix Brasil onde estará disponível já a partir de amanhã (01/04) o documentário “Legado Italiano”, de Márcia Monteiro, ambientado quase que integralmente na região da Serra Gaúcha. A obra que teve um um lançamento restrito nos cinemas por conta da pandemia, inclui tomadas na Itália e vai participar também o ‘Trento Film Festival’.

O documentário (O trailer pode ser assistido aqui) aborda os 145 anos da imigração italiana e os legados desse fenômeno para a cultura brasileira. “A religiosidade, a música, a gastronomia, a indústria, o dialeto talian e o vinho são alguns dos assuntos tratados no filme, a partir de entrevistas das famílias de descendentes dos imigrantes italianos no Brasil e entrevistas na Itália”, explicam os produtores.
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Segundo a diretora Marcia Monteiro, o ‘Trento Film Festival 2021’ é um dos mais tradicionais da Itália e acontecerá entre 30 de abril e 9 de maio. “Além da Serra Gaúcha, o porto de Gênova e as regiões do Trentino e do Vêneto são cenários do documentário. Agora a nossa expectativa é que o filme também seja distribuído na Itália”, comenta.

No ano passado, o longa, coproduzido pela Celeiro Produções, Globo Filmes e Globo News, também foi exibido no Most Festival Internacional de Cinema del Vi i el Cava, na Espanha. A produção é de Camisa Listrada com distribuição da Lança Filmes.

domingo, 21 de março de 2021

Como 23 judeus expulsos de Recife ajudaram a fundar Nova YorK


A bordo do navio Valk, cerca de 600 judeus deixaram Recife, em Pernambuco, expulsos pelos portugueses. Era o fim da ocupação holandesa no Brasil e também da liberdade de praticar sua religião.

Por BBC

18/03/2021 08h30 Atualizado há 3 dias



Mapa do Brasil mostra capitanias em 1630 — Foto: Biblioteca do Congresso dos EUA/BBC

Eles queriam voltar à terra natal — a Holanda, onde o culto do judaísmo era permitido devido ao calvinismo. De lá haviam chegado mais de duas décadas antes, quando os holandeses conquistaram parte do Nordeste brasileiro — de olho na produção e comércio do açúcar.

Mas uma tempestade desviou-os do caminho e o navio foi saqueado por piratas.

O grupo foi resgatado por uma fragata francesa e levado à Jamaica, então colônia espanhola, e acabou preso por causa da Inquisição espanhola.


Mas, graças à intervenção do governo holandês, foram libertados e, por motivos financeiros, parte deles seguiu para um destino mais próximo do que a Europa: a colônia holandesa de Nova Amsterdã, atual Nova York, então um mero entreposto comercial.


Vista de Mauritsstad (Recife) em 1645 — Foto: Wikicommons/BBC



Ali formaram a primeira comunidade judaica da América do Norte e contribuíram para o desenvolvimento da cidade. Atualmente, Nova York é a segunda cidade com o maior número de judeus no mundo, atrás apenas de Tel Aviv, em Israel.


Mas essa história rocambolesca não começa em 1654, ano em que Portugal derrotou os holandeses e retomou o controle do Nordeste, provocando, por consequência, a expulsão dos judeus, temerosos com a Inquisição.




Imigração judaica




Cerco holandês a Olinda e ao Recife — Foto: Wikicommons/BBC


A imigração judaica ao Brasil remonta à época do descobrimento, com os chamados "cristãos novos", judeus que foram obrigados a se converter ao cristianismo na Península Ibérica devido à perseguição pela Igreja Católica.


Na então maior colônia portuguesa, alguns deles abdicaram das práticas judaicas. Outros as mantinham às escondidas.


Livro de Daniela Levy foi resultado de 10 anos de pesquisas — Foto: Daniela Levy/BBC


Mas foi em fevereiro de 1630 com a ocupação holandesa que os judeus dos Países Baixos, alguns dos quais descendentes dos que haviam fugido da Península Ibérica rumo à Holanda, chegaram ao Brasil, diz à BBC News Brasil a historiadora Daniela Levy, autora do livro De Recife para Manhattan: Os judeus na formação de Nova York (Editora Planeta), que demandou 10 anos de pesquisa. Levy investigou inicialmente o tema para sua dissertação de mestrado, na Universidade de São Paulo (USP).


"Os judeus que vieram ao Brasil eram descendentes dos cristãos novos que se mudaram para a Holanda um século depois da conversão forçada pela Inquisição. Naquele país, eles puderam retornar ao judaísmo, recuperando tradições e reorganizando-se enquanto comunidade", explica Levy.


Muitos desses judeus holandeses integravam a Companhia das Índias Orientais, uma empresa de mercadores fundada em 1602 e cujo objetivo era acabar com o monopólio econômico da Espanha e de Portugal.


No Recife, eles foram abrigados por parentes aqui já estabelecidos, mas constituíram sua própria comunidade, na qual podiam, enfim, professar sua religião em paz, dedicando-se ao comércio, à botânica e à engenharia.


Construíram escolas, sinagogas e cemitério, dando sua contribuição ao enriquecimento da vida cultural da região.


Olinda, então cidade mais rica do Brasil Colônia, foi saqueada e destruída pelos holandeses, que escolheram Recife como a capital da Nova Holanda. O mapa de Nicolaes Visscher mostra o cerco a Olinda e Recife em 1630 — Foto: WIKICOMMONS/BBC


A primeira sinagoga das Américas, Kahal Zur Israel, foi fundada ali, ocupando um dos casarões da "Rua do Bom Jesus", então chamada de "Rua dos Judeus", e reinaugurada em 2002 após restauração.



As estimativas sobre o número de judeus no período holandês variam muito, entre 350 e 1.450. O número é expressivo considerando que cerca de 10 mil pessoas viviam na região.


Segundo Levy, a isso não só se deveu ao fato de que a Holanda era calvinista, permitindo a liberdade de de culto, mas também graças a Johan Maurits van Nassau-Siegen, ou Maurício de Nassau, militar que governou a colônia holandesa no Recife de 1637 a 1643.


"A Holanda era um país protestante e abriu suas portas para outras religiões quando se tornou independente da Espanha. Foi então quando os cristãos novos saíram de Portugal e foram para lá. Existiam alguns calvinistas que tinham animosidades contra os judeus, mas, de forma geral, a política holandesa era de tolerância religiosa", diz Levy.


Kahal Zur Israel foi primeira sinanoga das Américas — Foto: WIKICOMMONS/BBC


"Maurício de Nassau, um grande humanista, defendia a visão de que o bom convívio de grupos de diferentes religiões seria politicamente mais proveitoso, e também do ponto de vista econômico", acrescenta.


Com o intuito de transformar Recife na "capital das Américas", Nassau investiu em grandes reformas, tornando-a uma cidade cosmopolita. Apesar de benquisto, ele acabou acusado por improbidade administrativa e foi forçado a voltar à Europa em 1644.


Maurício de Nassau transformou Recife na cidade mais cosmopolita das Américas — Foto: WIKICOMMONS/BBC



Após o fim da administração Nassau, a Holanda passou a exigir a liquidação das dívidas dos senhores de engenho inadimplentes, o que levou à Insurreição Pernambucana e que culminaria, mais tarde, com a expulsão dos holandeses do Brasil, em 1654.


Na prática, mesmo depois de terem sido derrotados, os holandeses receberam dos portugueses 63 toneladas de ouro para devolver o Nordeste ao controle lusitano no século 17.


O pagamento envolvia dinheiro, cessões territoriais na Índia e o controle sobre o comércio do chamado Sal de Setúbal, segundo disse à BBC News Brasil em 2015 Evaldo Cabral de Mello, historiador e integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL).


O montante equivaleria a cerca de 500 milhões de libras esterlinas (R$ 4 bilhões) em valores atualizados, de acordo com Sam Williamson, que fez o cálculo na ocasião a pedido da reportagem. Williamsom é professor de economia da Universidade de Illinois, em Chicago, nos Estados Unidos, e cofundador do Measuring Worth, ferramenta interativa que permite comparar o poder de compra do dinheiro ao longo da história.


Os judeus que aqui haviam fincado raízes por aqui se viram sem alternativa. Receberam um ultimato do então governador da região, Francisco Barreto de Menezes: três meses.


Alguns deles fugiram o Sertão. Outros decidiram voltar à Holanda — dando início à epopeia que abre esta reportagem.


Cemitério antigo judeu em Nova York — Foto: Biblioteca do Congresso dos EUA/BBC



Após a intempérie com os piratas e a prisão na Jamaica, 23 deles, entre os quais famílias com crianças nascidas no Brasil, partiram rumo a Nova Amsterdã.


Registros populacionais da Prefeitura de Nova York mostram que eles chegaram em setembro de 1654, mas não foram "bem recebidos", conta Levy.


A então colônia holandesa era insignificante, quase deserta e governada por um calvinista fanático, Peter Stuyvesant, que impôs várias dificuldades aos recém-chegados.


"Stuyvesant não gostava de judeus. Ele não queria permitir a entrada deles. Mas a comunidade judaica da Holanda interferiu a favor deles e eles foram aceitos", diz Levy.


"O restante do grupo - que havia ficado preso na Jamaica - acabaria se juntando aos 23 posteriormente", acrescenta.


Monumento homenageia primeiros judeus a chegarem a Nova Amsterdã — Foto: Daniela Levy/BBC


A duras penas, os 23 judeus conseguiram sobreviver a partir do comércio, que logo cresceu, atraindo mais judeus para a cidade, que viria a mudar de nome (para Nova York) em 1664.


Depois da guerra de independência americana, seus descendentes alcançaram plena cidadania. Um deles, Benjamin Mendes (1745-1817) fundou a Bolsa de Nova York.


Na Grande Maçã, um monumento, chamado Jewish Pilgrim Fathers, rende homenagem aos Henrique, Lucena, Andrade, Costa, Gomes e Ferreira que ajudaram a fundar e desenvolver a cidade.


Recentemente, essa saga deu origem a um novo livro, Arrancados da Terra - Perseguidos pela Inquisição na Península Ibérica, do escritor e jornalista Lira Neto (Editora Companhia das Letras).



Placa homenageia primeiro cemitério judeu em Nova York — Foto: Daniela Levy/BBC


Após a ocupação holandesa, imigrantes judeus começaram a chegar ao Brasil em 1810, oriundos, em sua maioria, do Marrocos. Eles se estabeleceram principalmente em Belém, onde fundaram a segunda mais antiga sinagoga do Brasil, que continua ainda hoje em pleno funcionamento. Ali também construíram o primeiro cemitério israelita do país.


A partir de então, a imigração judaica se intensificou culminando com seu apogeu na primeira metade do século 20, após a 2ª Guerra Mundial. Além do Nordeste, Sul e Sudeste foram os principais destinos. Os imigrantes partiram, na maior parte, da Europa e de alguns países árabes.




Dia Nacional da Imigração Judaica




Batalhas dos Guararapes levaram ao fim do domínio holandês — Foto: WIKICOMMONS/BBC



Nesta quinta-feira, dia 18 de março, comemora-se o Dia Nacional da Imigração Judaica.


A data que celebra a contribuição do povo judeu na formação da cultura brasileira foi criada por um projeto de lei de autoria do então deputado federal Marcelo Itagiba (PSDB-RJ), e sancionado em 2009.


Para marcar a ocasião, a Confederação Israelita do Brasil (Conib) vai promover uma "live" reunindo Itagiba e o ex-chanceler Celso Lafer, professor e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL).


Palácio de Friburgo, construído Maurício de Nassau entre 1640 e 1642, foi demolido no século 18 — Foto: WIKICOMMONS/BBC


"O Brasil permitiu que imigrantes judeus reconstruíssem suas vidas com acolhimento e liberdade, e nossa comunidade, pequena, mas diligente, retribuiu com muito amor e trabalho. Aqui criamos nossas famílias, criamos empresas, desenvolvemos carreiras profissionais nas mais diversas áreas de atuação e conhecimento", diz Claudio Lottenberg, presidente da Conib.


"Por isso a comunidade judaica brasileira está tão bem integrada à comunidade maior de brasileiros, com diversidade e dedicação ao país generoso que acolheu nossos pais e avós", acrescenta.


Atualmente, o Brasil possui a segunda maior comunidade judaica da América Latina, com cerca de 120 mil cidadãos.