quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Número de pedidos de refúgio cresce 800% em quatro anos no Brasil


Número de pedidos de refúgio cresce 800% em quatro anos no Brasil
Novos trabalhadores vêm de Bangladesh, de Gana, do Senegal, do Haiti, em uma das maiores ondas migratórias já registradas no país.




Os novos trabalhadores do Brasil vêm de Bangladesh, de Gana, do Senegal, do Haiti, em uma das maiores ondas migratórias já registradas no país. Como eles chegaram aqui? Por que vieram para cá? E como eles conseguem ficar, arranjar empregos, trabalhar? É o que você vê na reportagem de Felipe Santana.

A casa acabou de ser alugada por Billy, de 27 anos, senegalês que acertou os trâmites. Deixar o sapato do lado de fora é sinal de respeito. É um líder da comunidade. “Todos os últimos domingos do mês a gente se encontra aqui. Oramos, fazer a oração que temos que fazer”, ele diz.

Eles se preparam para o fim do Ramadã, o mês sagrado da religião islâmica. Nesse mês, muçulmanos, no mundo todo, mantêm jejum e abstinência sexual do amanhecer até o pôr do sol.

A casa é um pedaço do Senegal na cidade gaúcha de Caxias do Sul. A cidade de 500 mil habitantes recebeu 1,8 mil senegaleses nos últimos três anos. O que tem deixado muita gente assustada.

“Não acho justa a convivência deles aqui no meio da gente”, diz um morador.

“Sem falar todas as doenças que eles estão trazendo”, diz uma mulher.

“O pessoal daqui vai perder emprego por causa disso. Porque por qualquer mixaria eles estão trabalhando”, afirma um senhor.

“Acho que inclusive até aqueles que estão vindo aqui têm que ir embora!”, reclama uma senhora.

Agora, imagina como ficou a mesma cidade quando chegaram 300 ganeses de uma só vez, no mês passado, sem aviso. Eles nunca tinham sentido frio, até esse dia. No abrigo da igreja fazia 4°C.

Um grupo de 15 acordou cedo para um dia decisivo. A irmã Maria do Carmo cuida deles desde que chegaram.

Fantástico: Mas o que a senhora sentiu?
Maria do Carmo: Angústia, muita angústia. Até mesmo porque a gente sabe que não há um consenso do que deve ser feito ou não com relação a essas pessoas aqui.

Às 7h, todos estão com os documentos prontos. É o dia que eles vão pedir refúgio no Brasil.

Qualquer estrangeiro pode pedir refúgio no Brasil. Ao entrar com esse pedido, ele tem direito, automaticamente, a uma carteira de trabalho e a um CPF, até que o caso seja julgado. Mas, de acordo com a lei brasileira, esse estrangeiro só pode receber refúgio se comprovar que sofreu algum tipo de perseguição - política, religiosa ou étnica, por exemplo - no seu país de origem. Não é o caso da maioria dos ganeses que chegou ao Rio Grande do Sul. Eles estão no local em busca de emprego.

Veja o exemplo do Gerhardt. Ele é engenheiro de óleo em gás, tem pós-graduação, fala cinco línguas. E acabou de pedir refúgio ao Brasil. “Antes de vir eu pesquisei sobre a economia do Brasil na internet e decidi que aqui é um bom lugar para começar a vida. Em Gana, mesmo formado, eu não conseguia um salário de mais de R$ 600. E aí eu pensava: quando vou poder comprar um terreno, construir uma casa, casar, dar uma boa educação aos meus filhos?”, conta Gerhardt.

E foi com histórias assim que o número de pedidos de refúgio aumentou em 800% nos últimos quatro anos no Brasil.

“O Brasil faz propaganda pelo futebol. Pelé é negro. O Brasil tem brancos e negros. Eu sou negro. Eu me misturo nesse país.”, avalia Gerhardt.

O governo brasileiro emitiu 8,5 mil vistos para ganeses virem assistir à Copa do Mundo. Foi desse jeito que eles entraram no país. Mil e cem não voltaram depois da Copa.

O ganês Adams trabalhou como vendedor durante cinco anos para conseguir comprar a passagem para vir ao Brasil. “Eu usei a Copa do Mundo como um pretexto. Ia ser muito difícil entrar no Brasil se não fosse desse jeito. Em Gana, não é fácil conseguir um visto de viagem.”, conta Adams.
O sonho dele é ser jogador de futebol.

No abrigo em Caxias do Sul, duas semanas depois da primeira visita do Fantástico, todo os ganeses já tinham uma carteira de trabalho. Gerahrdt ainda nem sabe se seu pedido de refúgio será aceito, mas já está com a carteira de trabalho na mão e preenche o currículo para entregar pela cidade.

Às 9h um ônibus chega no abrigo para recolher trabalhadores para levar pra uma fábrica no interior do estado. Cerca de 20 ganeses foram levados para lá e o Fantástico acompanhou a viagem.

“Eu preciso trabalhar! Eu só quero agradecer a todos os brasileiros, porque eles gostam de todo mundo. Isso me fez amar o Brasil. Não tem racismo. Todo mundo é igual”, conta um dos ganeses.

“A necessidade da mão de obra faz com que a gente faça tudo isso. Que a gente invista em trazer essas pessoas para trabalhar, porque eles querem trabalhar”, conta Leticia Moreira, gestora do RH da fábrica.

Fantástico: Mas eles vão ganhar o mesmo salário que ganharia um brasileiro?
Gestora do RH da fábrica: Mesmo, mesmo salário. Os mesmos benefícios.

São duas horas de estrada até São Sebastião do Caí, cidade de 20 mil habitantes. Primeiro, os exames admissionais. Em nenhum ganês foi diagnosticada doença contagiosa ou que impeça o trabalho. Todos têm que tirar a barba. Só depois, vestem o uniforme para conhecer a fábrica de conservas. De acordo com um levantamento entre empresas da Serra Gaúcha, há 7 mil vagas abertas na região. Mas tem sido difícil atrair jovens brasileiros.

“Tem sido bastante difícil em função da alta. A geração Y não tem muita paciência nos postos de trabalho e quer os resultados de forma imediata”, avalia Claudio Oderich, diretor da empresa.

O dia já chegava ao fim quando o grupo de ganeses conheceu o novo lar. A casa que a empresa alugou por seis meses para que os 20 trabalhadores morem é uma casa de cinco quartos.

“Eu quero trabalhar aqui por muito tempo”, diz um deles.

Dividir o aluguel é comum entre imigrantes de todas as nacionalidades, no Brasil inteiro. Em Criciúma, Santa Catarina, 50 ganeses vivem em um porão de três cômodos, quase sem janelas.

“Muita gente continua chegando! E a gente tem que ajudar porque aqui é difícil alugar uma casa, conseguir um fiador. Você não pode deixar o irmão dormindo na rua”, conta um ganês.

*Brasília

Em Brasília, cinco jovens de Bangladesh têm uma situação um pouco mais confortável. Mas o caminho até o Brasil, para eles, foi bem diferente.

Faruk não chegou por conta própria. Há um ano, pagou R$ 35 mil a uma pessoa que o levaria até a fronteira do Brasil. Ou seja, um coiote. Voou de Daca, capital de Bangladesh, para Dubai; de lá para São Paulo; depois passou pelo Peru até chegar à Bolívia. De lá, um grupo de imigrantes foi levado pelos coiotes para a fronteira com o Brasil. Ele não sabia que ia ser assim. Achava que tinha pago por um visto.

“Eu protestei: ‘cadê o meu visto?’ Ele não deu. Bateu em mim e falou: ‘você precisou ir para o Brasil’”, conta Faruk.

Faruk e o grupo foram obrigados a entrar na floresta para atravessar a fronteira ilegalmente. “Eu andei no mínimo três horas, dentro da floresta, para passar da fronteira do Brasil”, lembra Faruk.

Depois, foi todo mundo para dentro de um caminhão até Cuiabá. “Todas as pessoas só chorando e chamando por Deus. Três dias e eu não sabia como chamar ‘água’. Muito difícil. Não como carne de porco, mas eu acho que eu comi”, conta Faruk.

De Cuiabá, foi colocado em um ônibus para Brasília, e ainda não tinha o visto prometido pelo coiote. Para ficar no Brasil, então, ele foi orientado a pedir refúgio, como o Billy, o Gearhrdt e o Adams.

No ano passado, 1.940 bengalis solicitaram refúgio ao Brasil. Apenas quatro pedidos foram aceitos. Faruk ainda não teve resposta do seu pedido. Como Faruk já estava trabalhando, e o pedido de refúgio dele, provavelmente seria negado, o caso dele acabou parando no Ministério do Trabalho.

“No final do ano passado, fomos confrontados com uma situação em que existe um grupo relativamente grande de trabalhadores que estavam empregados e havia o receio dos seus pedidos de refúgio serem negados pelo governo brasileiro”, conta Paulo Sérgio de Almeida, presidente do Conselho Nacional de Imigração.

O Ministério do Trabalho resolveu dar um jeito de regularizar os trabalhadores estrangeiros.

“Esses casos foram encaminhados ao Conselho Nacional de Imigração, que acabou analisando esses casos como situação especial, entre aspas, e garantindo documentos, garantindo a possibilidade desses trabalhadores estrangeiros permanecerem no nosso país”, explica Almeida.

Em 2012, 27 mil carteiras de trabalho foram expedidas para estrangeiros. Em 2013, foram 41 mil. O próprio governo sabe que dar vistos em caráter extraordinário a quem pede refúgio não é o jeito certo de resolver a questão.

Fantástico: Solicitar o refúgio é driblar a nossa lei de imigração?
Presidente do CNIG: Acaba que muitas vezes a nossa legislação é antiga, ultrapassada. Ela, por exemplo, proíbe a regularização migratória de um estrangeiro. Proíbe.

A lei de imigração vigente no Brasil é da época da ditadura. “Nós herdamos uma lei que permite ao Estado fazer com o estrangeiro o que ele quiser: expulsá-lo, decidir se ele fica no país ou não. Bom, isso é incompatível com a nossa Constituição de 1988 e com os acordos internacionais que o Brasil subscreveu”, diz Deisy Ventura, professora de direito internacional da USP.

“Eu avalio como uma lei que precisa ser urgentemente modificada”, diz o presidente do CNIG.

O governo criou uma comissão de especialistas para discutir mudanças na legislação. Deisy Ventura, pesquisadora da Universidade de São Paulo, participou dessa comissão. O grupo propõe, em primeiro lugar, a criação de uma autoridade nacional migratória e a criação de um visto temporário para que o imigrante procure emprego, legalmente, no Brasil.

“Se ela consegue esse trabalho, ela pode converter essa autorização em uma residência temporária ou residência permanente”, explica Deisy Ventura.

Esses pontos estão em um anteprojeto de lei, obtido pelo Fantástico, que foi encaminhado pelo grupo de pesquisadores ao Ministério da Justiça. Mas ainda não há previsão de quando ele será analisado pelo governo e quando vai para o Congresso.

“Qual a sociedade eu quero daqui a dez anos? É uma sociedade de guetos? É uma sociedade aonde algumas pessoas estão à margem, são de uma cultura diferente, tem uma cor diferente, uma religião diferente? Ou eu quero uma sociedade sadia, saudável, onde as pessoas possam crescer, se desenvolver de forma harmônica, saudável?”, questiona Maria do Carmo.

O Brasil foi obrigado a lidar com essa situação quando milhares de haitianos chegaram a Brasiléia, no Acre. Sobreviventes do terremoto de 2010 que arrasou o país atravessaram a Floresta Amazônica em busca de emprego. Eles não poderiam ficar no Brasil, segundo nossa lei de imigração. O governo também arranjou um jeito temporário de regularizá-los. Até agora, concedeu vistos humanitários para 30 mil haitianos, que também receberam uma carteira de trabalho.

Eles vão tentando construir a vida por aqui. O Brasil deu para o haitiano Claudel mais do que um emprego – ele agora tem uma filha. “Nasceu aqui, ela é brasileira já, então tem que chamar ela de nome brasileiro, se chama Ana Clara”, diz o haitiano.

Ana Clara está matriculada na creche municipal. Em Criciúma, Santa Catarina, Claudel trabalha na construção. Ainda não conseguiu erguer o banheiro da própria casa. Mas isso por enquanto é detalhe.

“O brasileiro fala: ‘Irmão! Irmão do fundo do meu coração!’ Se o povo está feliz de me ter, tenho que ficar feliz também!”, diz Claudel.

Ele não sabe por quanto tempo poderá ficar no Brasil. Cada dia o trabalho, se torna uma batalha pelo direito mais básico.

“Trabalhar é liberdade, tem que trabalhar”, define.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Aumenta fuga de cubanos para EUA apos anuncio de aproximação



Migração
Aumenta fuga de cubanos para EUA após anúncio de aproximação
Em dezembro, 481 cubanos foram capturados no mar ou chegaram à costa dos Estados Unidos

Publicado em 05/01/2015, às 21h39






AFP


Nos primeiros dias de janeiro, as autoridades americanas detiveram 96 imigrantes cubanos que tentavam chegar ao estado da Flórida a bordo de balsas
Foto: Marina Italiana


O número de "balseiros" cubanos que chegaram aos Estados Unidos ou foram capturados no mar mais do que dobrou no mês de dezembro em relação ao mesmo período de 2013, após o anúncio da aproximação entre Washington e Havana, informou nesta segunda-feira a Guarda Costeira.



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Em dezembro, 481 cubanos foram capturados no mar ou chegaram à costa dos Estados Unidos em 37 eventos, assinalou a Guarda Costeira em um comunicado.

"Isto é um aumento de 117% em relação a dezembro de 2013", destaca o texto.

Nos primeiros dias de janeiro, as autoridades americanas detiveram 96 imigrantes cubanos que tentavam chegar ao estado da Flórida a bordo de balsas, colocando sua vida em risco.

Em resposta ao incremento da imigração irregular, a Guarda Costeira ampliou seu patrulhamento em torno da Flórida, cujo ponto mais austral está a apenas 144 km de Cuba.

Nesta segunda-feira, a Guarda Costeira repatriou 121 cubanos detidos nos últimos dias.

O aumento do número de balseiros ocorre após o presidente americano, Barack Obama, e seu colega cubano, Raúl Castro, anunciarem a decisão de caminhar para a normalização das relações diplomáticas após meio século de rompimento.

O número de "balseiros" cubanos que viajam para os Estados Unidos cresceu 75% entre 2013 e 2014, de 2.129 a 3.722, segundo a Guarda Costeira.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Imigrantes latinos engrossam luta por moradia em São Paulo


Imigrantes latinos engrossam luta por moradia em São Paulo

Artur Rodrigues, Marcelo Godoy e Nilton Fukuda

Divulgação

Muitos bolivianos vêm para o Brasil em busca de melhores oportunidades de trabalho




Um drama do primeiro mundo chegou ao Brasil. O aumento da imigração de latino-americanos, como bolivianos, paraguaios, peruanos e haitianos, empurrou essas pessoas para favelas, cortiços e terrenos invadidos na cidade de São Paulo. Sem dinheiro para pagar aluguel, eles se tornam cada vez mais conhecidos dos movimentos sem-teto, que os ajudam a se legalizar e entrar nos programas de habitação.

Só na ocupação Pinheirinho 2, no extremo leste da capital, há pelo menos 20 famílias de bolivianos que tentam conseguir uma casa própria e a inclusão em benefícios do governo. "Há também chilenos, argentinos, nigerianos. Nossos advogados ajudam no processo de legalização", afirma o metalúrgico Jean Carlos da Silva, de 36 anos, um dos coordenadores da ocupação. Após ameaça de reintegração de posse no mês passado, o terreno está sendo desapropriado pela Prefeitura para a construção de moradias.

Em 2009, os acordos do Mercosul que dão direito à residência abriram espaço para que todos os bolivianos, paraguaios e chilenos pudessem ter os mesmos direitos civis e sociais dos brasileiros. Em 2011, foi a vez dos peruanos. Com documentos em mãos, eles passaram engrossar as fileiras dos movimentos sociais na cobrança por uma casa própria.

Morador do Pinheirinho 2 com a mulher e as duas filhas, o boliviano Ivan Apaza, de 30 anos, esperava conseguir uma das casas anunciadas pelo prefeito Fernando Haddad (PT) na segunda-feira passada. "Morava em São Mateus e o aluguel era de R$ 800. Vivia só para pagar o aluguel", diz ele, que aproveitou o anúncio para tirar uma foto com Haddad.

A presença de estrangeiros nas ocupações do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto também é comum. "Se para os brasileiros a situação já é complicada, para um boliviano que é explorado em uma tecelagem é pior ainda", afirma Guilherme Boulos, um dos coordenadores do movimento. Com ajuda do movimento, diz Boulos, um imigrante boliviano já conseguiu um apartamento pelo programa Minha Casa Minha Vida, do governo federal. Ele afirma que, em outros Estados do País, a situação é ainda mais dramática. "Na cidade de Manaus, há uma ocupação do movimento formada praticamente por haitianos", afirma.

Para Boulos, a supervalorização dos imóveis no centro, onde os imigrantes se fixaram na década passada, favorece a expulsão desse grupo para áreas cada vez mais distantes.

Periferia

A boliviana Amanda Ticona, de 42 anos, chegou a São Paulo há dez. "Morava na Casa Verde, zona norte. Agora, só tenho condições de viver no Pinheirinho 2", diz a mãe de quatro filhos, que sobrevive vendendo comida para trabalhadores de oficinas de costura. Seu vizinho, Natan Ventura, de 26 anos, tem de cruzar todos os dias a cidade para chegar ao trabalho. "Levo duas horas para ir e duas para voltar da oficina onde trabalho, no Bom Retiro."

O vice-presidente da Associação de Residentes Bolivianos, Abel Claro, explica que os bolivianos que chegam ao Brasil moram apenas temporariamente nas oficinas de costura. "Após um tempo, eles têm obrigação de alugar uma casa", diz. "Mas se ganham R$ 1 mil, vamos supor, não conseguirão alugar uma casa", acrescenta. De acordo com estimativa da associação, há cerca de 300 mil bolivianos na cidade de São Paulo. A minoria é regularizada: dados do Ministério da Justiça revelam que, em todo o País, há cerca de 90 mil bolivianos com documentos. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Obama anuncia novas regras para imigrantes sem documento


Obama anuncia hoje novas regras para imigrantes sem documento




Barack Obama fala à imprensa na Casa Branca (Michael Reynolds/EPA/Agência Lusa)Michael Reynolds/EPA/Agência Lusa

O presidente norte-americano, Barack Obama, apresenta hoje (20) um plano de mudanças sobre migração. O anúncio deve ser feito à noite, em discurso transmitido pelas redes de televisão e rádio do país.

As novas normas de migração terão efeito sobre a vida de cerca de 4 milhões de pessoas que residem nos Estados Unidos e não têm documento. Ao longo desta semana, a Casa Branca promoveu várias reuniões, e interlocutores do governo falaram sobre o plano. O anúncio pode provocar reações no Congresso americano que, após as eleições do começo deste mês, tem maioria republicana.

Em vídeo divulgado nessa quarta-feira (19) no site da Casa Branca, Obama disse que fará o discurso às 20h (23h no horário brasileiro de verão). “Vou falar sobre as medidas que posso tomar para começar a consertar nosso sistema de imigração, porque todo mundo concorda que ele está quebrado”, acrescentou.

A revisão da Lei de Imigração é uma promessa antiga de Obama, ainda em seu primeiro mandato, e um projeto de reforma do sistema migratório deveria ter sido enviado pelo Executivo ao Congresso, mas isso não ocorreu. Em junho, Obama disse que não esperava que o Congresso aprovasse uma reforma e que anunciaria mudanças no fim de setembro.

À imprensa americana, funcionários da Casa Branca ressaltaram que, apesar da assinatura do decreto, Obama estaria aberto para enviar uma proposta de reforma migratória ampla, caso os republicanos não impeçam a votação da matéria.

Os detalhes sobre o plano não foram revelados, mas os jornais e as emissoras de TV americanas especulam e analisam o teor do decreto que Obama pretende anunciar. Ainda não se sabe se a Casa Branca pretende “legalizar” também os residentes sem documentos que trabalham nos Estados Unidos. Alguns analistas apostam que o decreto deve contemplar os imigrantes sem documento que residam no país a partir de um número mínimo de anos.

O número de imigrantes beneficiados vai depender dos limites estabelecidos pela lei. A Rede CNN de Televisão mostrou que se a medida se limita aos migrantes que tenham filhos no país e um tempo mínimo de cinco anos, o número de beneficiados poderia ser 3,3 milhões. Se o número de anos sobe para dez como exigência mínima, o benefício atingiria 2,5 milhões de pessoas.

O decreto deverá aumentar o rigor com relação à deportação de imigrantes criminosos (sem documentos, que cometeram delitos em território americano) e ainda a expansão de vistos de trabalho para áreas específicas. Medidas sobre segurança nas fronteiras também devem ser anunciadas

Amanhã (21), o presidente viajará até uma escola secundária em Las Vegas, Nevada, para buscar apoio às suas ações e detalhar o impacto do projeto em um estado onde os latinos formam um eleitorado crescente e politicamente poderoso. As eleições presidenciais que vão escolher o sucessor de Obama serão feitas em 2016. Para ele, é essencial conseguir o apoio da comunidade de imigrantes, especialmente dos provenientes da América Latina, maior parcela dos que vivem no país.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Brasil: Lutando contra a escravidão dos dias de hoje



Brasil: Lutando contra a escravidão dos dias de hoje
Tradução publicada em 4 Agosto, 2009 19:54 GMT
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Cortador de cana. Foto de Ricardo Funari, usada com permissão.

Que o trabalho escravo é um resquício da escravidão no Brasil, particularmente nos Estados do Norte e Nordeste do país, já se sabe. Tendo sido o último país no mundo a decretar a abolição, em 1888, nas regiões mais isoladas onde os tentáculos da justiça têm dificuldade de chegar, a escravidão temporária por dívida e o trabalho sob coação vêm acontecendo e sendo combatidos regularmente pelo Governo.

No entanto, sempre que ocorre um incidente deste fenomeno no Estado de São Paulo, particularmente na megalópole paulistana, a notícia ganha as capas dos principais jornais brasileiros. Foi o que aconteceu na semana passada, quando fiscais do trabalho de São Paulo, acompanhados de procuradores do trabalho, libertaram 20 pessoas da escravidão (dos quais, dois jovens com 17 anos) em Mogi Guaçu (SP). O blog do Sakamoto, parceiro do premiado site Repórter Brasil, especializado na temática de trabalho escravo, noticiou o ocorrido, chamado a atenção para a ironia de encontrarem adolescentes escravos justo dentro de uma escola abandonada.


OK, isso já aconteceu outras centenas de vezes no Brasil, infelizmente. O absurdo da vez foi que o empregador alojou o pessoal em uma escola pública desativada, com fiação elétrica exposta e esgoto correndo a céu aberto. Mesmo depositando o pessoal nessas condições, disse que cobraria aluguel pela hospedagem.

A prefeitura havia feito um contrato com Pimenta para que ele usasse a casa dos fundos da escola em troca de manutenção do local. A escola Fazenda Graminha foi cedida pelo Estado para o município há nove anos. Agora, o contrato será cancelado e a prefeitura estuda entrar com um processo contra o empregador. O prédio foi lacrado e a secretaria fará um estudo sobre a possibilidade de reativar a escola. Incrível! Discute-se a “possibilidade”…




Cortadores de cana almoçando no meio do canavial, sob um sol escaldante. As refeições são servidas sem talheres, proteção contra os elementos. Foto: Ricardo Funari

A incidência do trabalho escravo em São Paulo evoca a questão já posta pelo jornalista independente e intelectual paraense Lucio Flávio Costa no passado: O trabalho escravo é uma anomalia amazônica?


Desde 2003, 192 pessoas foram autuadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego por submeter seus empregados a regime de trabalho análogo à escravidão. Mais de dois terços dessas empresas (147) atuam na Amazônia Legal. O campeão nacional do trabalho escravo é o Pará, com quase um quarto de todas as atuações, 52. As duas colocações seguintes nesse nefando ranking são ocupadas por Estados amazônicos: Tocantins (43) e Maranhão (32).

O que leva à concentração dos casos de exploração de mão-de-obra não é uma anomalia amazônica, mas o fato de a região constituir a área de expansão da fronteira econômica do Brasil. Há o pressuposto tácito (ou tático) de que o pioneiro não traz necessariamente consigo a contemporaneidade.

O que Lúcio Flávio Pinto quer dizer é que apesar da incidência do trabalho escravo ser maior na fronteira, pelas condições favoráveis (além das geográficas, conforme diz Lúcio Flávio Pinto: a ausência da contemporaneidade, da justiça, da educação etc.), ela é perpetrada por agentes econômicos, fazendeiros e empresários, de todas as partes do Brasil, sempre pactuados com atores locais. Ou seja, é “a ocasião que faz o ladrão” e em diversos contextos favoráveis para a exploração da mão-de-obra, a herança escravagista brasileira se manifesta. Fora da fronteira, outros fatores contribuem para a ocorrência do fenômeno, tal como: a gestão municipal indiferente, pouca fiscalização, sindicatos inatuantes, trabalhadores imigrantes, vulneráveis e desinformados.




Cortadores de cana no alojamento: sem água potável, camas, luz elétrica, cozinha ou banheiro. Foto: Ricardo Funari.

O caso de Mogi-Guaçu não é isolado e os blogueiros brasileiros vêm regularmente reportando a incidência de trabalho escravo em São Paulo, tanto na área rural quanto na área urbana. Este ano, o blog Anjos e Guerreiros citou matéria sobre um flagrante de trabalho escravo e exploração de mão-de-obra infantil em uma fazenda que produz limão em Cabreúva, a 70 quilômetros da capital paulista.


Uma denúncia levou a polícia até a fazenda. Um lavrador estava na propriedade há quatro meses e conta que não recebeu nenhum pagamento. Os responsáveis pela contratação devem responder por exploração de trabalho infantil.
- Às vezes o povo dá um pouco de comida. Tem vez que nós não comemos, não almoçamos e nem jantamos.
Os funcionários contaram para os policiais que havia crianças trabalhando na colheita de limão. O Conselho Tutelar foi chamado e flagrou seis menores trabalhando no local. Um deles, um menino de 12 anos.

- Não tem luvas nem tinha equipamento, nem água. Eu ganho R$ 2 reais – diz o menino.
Uma adolescente conta que os patrões pediram para todos fugirem assim que ficaram sabendo que a polícia ia chegar.
- Nós dissemos que não fugiríamos – afirmou.

Na cidade de São Paulo, em plena área urbana, a incidência de trabalho escravo tem outras características para as quais o blog Verdefato chama a atenção:


O trabalho escravo urbano é menor se comparado ao do meio rural. A Polícia Federal, as Delegacias Regionais do Trabalho, o Ministério Público do Trabalho e o Ministério Público Federal já agem sobre o problema. Vale lembrar que a escravidão urbana é de outra natureza, com características próprias… O principal caso de escravidão urbana no Brasil é a dos imigrantes ilegais latino-americanos – com maior incidência para os bolivianos – nas oficinas de costura da região metropolitana de São Paulo. A solução passa pela regularização da situação desses imigrantes e a descriminalização de seu trabalho no Brasil.




Um informante encapuzado que conseguiu escapar da fazenda (ao fundo) leva a Polícia Federal a um local onde os trabalhadores são mantidos presos. Foto: Ricardo Funari

O blog também relata a uma situação de uma imigrante boliviana, uma dentre tantos estrangeiros ilegais no Brasil trabalhando nessas condições:


Sentada há mais de 16 horas diante da máquina de costura, a mãe de Ramón tem pressa. Maria Diaz costura uma peça de roupa atrás da outra, intensamente. Ela tem uma agenda para cumprir. Só pára quando precisa comer ou ir ao banheiro. A mãe do pequeno Ramón é uma mulher exausta.

Desde que chegou ao Brasil, em 2003, trabalha do amanhecer até tarde da noite. Não tem carteira assinada, equipamento de proteção, assistência médica. Ela não existe nos registros de imigração. Oficialmente, o governo brasileiro não sabe de sua presença. Tampouco sua saída da Bolívia, em 2003, foi registrada pelo governo daquele país. Maria foi trazida para São Paulo por intermediários conhecidos como “coiotes”, que ganham dinheiro contrabandeando gente de um país para outro. Em São Paulo, pelo menos 100 mil bolivianos estão nessa situação.




Um homem encontrado preso em uma fazendo faz a barba para ser fotografado para a primeira carteira de trabalho que já teve na vda. Foto: Ricardo Funari.

Ainda em São Paulo, um artigo do sociólogo e vereador Floriano Pesaro citado no blog Coisas de São Paulo, discute o caso das crianças de rua que são obrigadas pelos pais a trabalharem. Trata-se de um caso misto de duas infrações: o trabalho infantil e análogo à escravidão:


O trabalho infantil nas ruas, no comércio e até dentro de casa resiste no Brasil urbano e rural. Manifesta-se em suas piores formas, com práticas análogas ao trabalho escravo: exploração sexual comercial, venda e tráfico de crianças para trabalho ou exploração sexual, uso de crianças no comércio de drogas. Estas práticas envolvem atividades criminosas que são ilícitas e que levam crianças e adolescentes à morte. Na cidade de São Paulo, de acordo com pesquisa da FIPE, de 2007, são pouco mais de mil crianças em trabalho infantil somente nas ruas.

Ao escrever esse artigo para o Global Voices Online, fiquei pensando se disseminar tão más notícias para o mundo inteiro não prejudica a imagem do Brasil no exterior, mas um blog muito interessante, do Edson Rodrigues, me ajudou a refletir sobre o assunto. Ele traz uma lista de 15 Verdades e Mentiras sobre o trabalho escravo no Brasil e numa delas discute se a divulgação internacional do trabalho escravo traz prejuízos ao país:


12) Mentira: A divulgação internacional prejudica o comércio exterior e vai trazer prejuízo ao país.
Verdade: Isso é uma falácia. Não erradicar o trabalho escravo é que prejudica a imagem do Brasil no exterior. As ameaças de restrições comerciais serão levadas a cabo se o país não fizer nada para resolver o problema. Que usamos trabalho escravo, isso é público e notório…A agricultura é fundamental para o desenvolvimento do país. Por isso mesmo, ele deve estar na linha de frente do combate ao trabalho escravo, identificando e isolando os empresários que agem criminalmente. Dessa forma, impede-se que uma atividade econômica inteira venha a ser prejudicada pelo comportamento de alguns poucos.




Emissão de documentos trabalhistas na floresta. Foto: Ricardo Funari.

Faço dele as minhas palavras e concluo este artigo certa de que o trabalho escravo é um resquício generalizado da escravidão no Brasil e que anomalia é não combater este fenômeno sempre de frente.



As fotos que ilustram esse artigo foram gentilmente cedidas pelo fotógrafo baseado no Rio de Janeiro Ricardo Funari, que trabalha criando e documentando a injustiça social no Brasil. Segundo o que conheceu por meio de seu trabalho, “em geral, o trabalhador é reduzido à condição de escravo na sua forma mais aguda, com a mercantilização do trabalho braçal. Atraído por falsas propostas de boa remuneração feitas pelo “gato”- o empreiteiro de mão-de-obra – o lavrador deixa a família, a maioria das vêzes indo para outro estado, na esperança de um futuro que o livre da miséria. As despesas e alimentação são pagas pelo “gato”que, ao final de viagem o entrega a um fazendeiro. Está dado o primeiro golpe: antes mesmo de começar a trabalhar, o peão já tem uma dívida com o “gato”, não importa que tenha viajado milhares de quilômetros em velhos ônibus, quebrados, sujos e desconfortáveis, e sobrivivido a pão e refrigerantes. O próximo passo é tornar esta dívida impagável. Para isso, são cobrados do trabalhador as ferramentas do trabalho, o abrigo em galpões imundos e em condições de higiene subumanas, além dos mantimentos comprados a preços exorbitantes nos armazéns que funcionam dentro das fazendas. É o chamado “sistema barracão”, pelo qual a dívida se transforma em um instrumento eficaz, no sentido de reduzir os trabalhadores à situação de escravos.” Seu album de fotos, Contemporary Slavery in Brazil, pode ser visto no Flickr.




Um trabalhador desdentado cai na risada ao receber pagamento de acordo com a lei. Foto: Ricardo Funari

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Novos imigrantes mudam o cenário do Rio Grande do Sul




Novos imigrantes mudam o cenário do Rio Grande do Sul
Nova migração é um movimento recente, mas suficientemente forte para causar modificações econômicas, étnicas e culturais
por Carlos Rollsing e Humberto Trezzi16/08/2014 | 13h02

No Brasil, imigrantes podem ganhar até seis vezes mais Foto: Mauro Vieira / Agencia RBS


Um novo processo migratório, formado sobretudo por africanos e caribenhos, começa a vingar no Rio Grande do Sul – onde imigrantes italianos, alemães e poloneses se instalaram aos milhares no século 19. Muitas daquelas famílias europeias se fixaram em matagais despovoados na Serra, no Vale do Taquari e no Norte, dando início às principais colonizações do Estado.

As regiões cresceram, cidades como Caxias do Sul, Lajeado e Passo Fundo se tornaram pujantes polos industriais e hoje são ponta de lança do ciclo encabeçado por 11,5 mil estrangeiros negros – vindos não de zonas rurais, como seus antecessores, mas do meio urbano, e com pelo menos o Ensino Médio no currículo escolar.

Fogem da pobreza: no Brasil, podem ganhar até seis vezes mais do que no seu país de origem. O território gaúcho é um dos principais destinos de senegaleses e haitianos, principalmente o Interior, pois em Porto Alegre o custo de vida é mais alto, e a demanda por essa mão de obra, menor. Nas pequenas cidades, eles mudam o retrato da massa trabalhadora. Em Encantado, fundada por italianos, os migrantes negros já representam 2% da população – e 30% dos funcionários de um frigorífico da Dália Alimentos.

O sonho de todos é o mesmo dos colonos que chegaram há quase 200 anos: conseguir um lugar ao sol. Produzir. Vencer no Brasil.

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François Petit Compere, 27 anos, já se considera um vencedor. Saiu do Haiti de avião há três nos e cinco meses, rumo a Manaus. Passou horrores na jornada, dormiu ao relento, migrou para Bento Gonçalves, conseguiu emprego e hoje se diz “rico” para os padrões de seu país. Recebe R$ 1,2 mil de salário na metalúrgica Zen e, por trabalhar com polimento, mais 40% de insalubridade. Gasta R$ 300 com aluguel, almoça no bandejão da empresa e a maior parte do dinheiro restante manda para Porto Príncipe, onde sustenta o filho pequeno e a ex-mulher.

— A cada dois meses recebo, praticamente, o que levava um ano para conseguir no Haiti, como cabeleireiro — comemora François, que já trouxe a nova mulher, haitiana, para morar na Serra.


François ganha seis vezes mais do que recebia no Haiti
FOTO: DIEGO VARA

Alcançar o status de haitianos como François é o anseio dos ganeses, que começam a chegar em caravanas ao Brasil. Vincent Iaboa , 24 anos, partiu no início de julho de Kumane, no interior de Gana, onde atuava como vendedor ambulante. Juntou dinheiro seu e de um irmão para pagar a viagem, via Marrocos, até São Paulo. Pernoitou na rodoviária paulistana durante 15 dias. Quatro amigos que vieram com ele não aguentaram o barulho dos ônibus e desistiram, voltando. Iaboa era universitário, estudante de Administração de Empresas, mas aqui está disposto a fazer qualquer coisa para sobreviver. Dorme num colchonete dentro do Seminário Nossa Senhora Aparecida, em Caxias do Sul, alimentado pela caridade alheia.

ZH visitou as principais cidades gaúchas onde se concentram os novos imigrantes: Caxias, Bento Gonçalves, Lajeado, Encantado, Marau, Passo Fundo, Erechim e Gravataí. Autores do livro O Novo Rosto das Imigrações no Brasil: O Caso dos Haitianos no RS (a ser lançado em setembro), o pesquisador Jurandir Zamberlam e o padre João Marcos Cimadon, coordenador de Mobilidade Humana da Regional Sul da CNBB, estimam que 11,5 mil africanos, caribenhos e asiáticos se fixaram no Estado.



Porto Alegre é só ponto de passagem, diz Zamberlam, por conta de três fatores: o custo de vida, puxado pelo aluguel, é muito alto; estão no Interior as empresas de abate de animais e construção civil que mais precisam de mão de obra; e, lá, eles não são “invisíveis” como na Capital.

Os haitianos, dominicanos, senegaleses, ganeses, gambianos e bengaleses (habitantes de Bangladesh) e indianos que vieram para cá são de uma certa classe média urbana. Muitos têm Ensino Médio, Superior incompleto ou mesmo completo. Mulheres, como a senegalesa Adama Sall , 35 anos, funcionária do frigorífico Aurora, de Erechim.

Parte significativa é poliglota. No caso do Haiti, há pesquisadores que já classificam o fenômeno como uma “fuga de cérebros” do país. Nesse ponto, se diferenciam dos alemães e italianos vindos no século 19, na maioria agricultores com baixa instrução. Somente em grupos mais recentes vieram haitianos de menor escolaridade e mais pobres, ligados ao êxodo rural.

— As imigrações do século 19 foram fomentadas pelos governos. Havia uma política de trazer esses europeus para cumprir três objetivos básicos: povoar o Sul do Brasil, produzir alimentos em pequenas propriedades de terra e, em menor escala, promover um branqueamento da população em função da escravidão — diz o historiador René Gertz, professor da PUCRS.

A maioria dos novos imigrantes vem por conta própria, ingressando de forma ilegal. Depois fazem o pedido de refúgio, instrumento legal para um estrangeiro permanecer no Brasil, alegando perseguições políticas (caso de Bangladesh e de Gâmbia) ou questões
humanitárias (caso do Haiti, empobrecido mesmo antes do terremoto que o devastou, em janeiro de 2010). Mas o maior motivo das migrações é econômico, sobretudo em relação a Gana, Senegal e República Dominicana: seus habitantes querem é fugir da falta de trabalho e de dinheiro.

Após a solicitação, o migrante ganha direito de tirar a carteira de trabalho e, assim, ficar temporariamente no país. Em 2013, o número de pedidos quadruplicou, de 4,2 mil para 17,9 mil.

— Eu não chamaria isso de nova onda migratória. Onda pressupõe que, em algum momento, vai acabar. Diria que é um fluxo migratório que passa a incluir o Brasil – pontua Gabriela Mezzanotti, coordenadora do curso de Relações Internacionais da Unisinos.

— Esses fluxos sempre aconteceram, mas o Brasil era exportador, e não destino. Os brasileiros iam aos EUA. Agora estamos fazendo parte desses países que têm algo a oferecer aos migrantes.

zh.doc: quem são os novos imigrantes do Rio Grande do Sul

Enquanto América do Norte e Europa, premiadas por altas taxas de desemprego, fecham suas fronteiras, o Brasil vem se tornando referência internacional na acolhida. Não existe um programa oficial de incentivo do governo, mas a permanência é facilitada porque o mercado tem interesse na mão de obra.

— Há uma flexibilização da justificativa para o refúgio — diz diz Mariana Dalana Corbellini, subcoordenadora do curso de Relações Internacionais da Universidade de Santa Cruz do Sul.

— O Brasil considera um dever estabelecer cooperação em termos diplomáticos, fazendo intercâmbio com países em desenvolvimento. São brasileiras algumas das grandes construtoras que atuam na África e América Central, por exemplo. No caso haitiano, o Brasil envia milhares de vacinas ao ano pela Fundação Oswaldo Cruz, oferece cursos pelo Senai e Senac e é líder da Missão de Paz da ONU naquele território, o que lhe confere ainda mais responsabilidade frente aos cidadãos.

Ao mesmo tempo em que dá atenção especial a investimentos no Caribe e na África, o Brasil, com a força de sua indústria, acaba se tornando atrativo para os estrangeiros. O pesquisador Zamberlam exemplifica:

— Hoje, o Brasil é o maior exportador de frango para o mundo muçulmano, com 1,8 bilhão de habitantes atendidos por 300 empresas, a maioria delas da Região Sul. E os muçulmanos só admitem receber o produto se o abate for dentro do rito halal (nos preceitos da religião). Isso contribuiu para que milhares de africanos viessem trabalhar aqui.

Por vezes, as próprias empresas atraem a mão de obra estrangeira. A operação costuma se dar dentro da legalidade. Os refugiados têm carteira assinada e recebem as mesmas remunerações e benefícios dos brasileiros. Mas existem relatos de exploração. Alguns precisam quitar as dívidas contraídas com a viagem, o que os expõem a uma condição de fragilidade e análoga à escravidão: servidão por dívida, jornadas exaustivas, trabalho forçado e meios degradantes.

Em junho de 2013, em Cuiabá (MT), fiscais do Ministério Público do Trabalho (MPT)encontraram, em obras do programa Minha Casa Minha Vida, 21 haitianos alojados em situação precária. Em novembro do mesmo ano, em uma mineradora de Conceição do Mato Dentro (MG), havia, segundo definição do MPT, 100 haitianos “abrigados em local
similar a uma senzala”.

A primeira coisa que os estrangeiros fazem, após conseguir serviço, é mandar dinheiro aos que ficaram no seu país. É por isso que as remessas dos imigrantes superam as exportações haitianas, informa Letícia Mamed, doutoranda em Sociologia pela Universidade
Estadual de Campinas e professora da Universidade Federal do Acre, que integra um grupo de estudo de migrações. Mais de um terço da população adulta do Haiti recebe repasses monetários regulares de parentes radicados no Exterior. Foram US$ 1,5 bilhão em 2010 e US$ 2,1 bilhões em 2011.

A escassez de força de trabalho nas indústrias do interior gaúcho foi determinante para que empresários buscassem migrantes. Sem eles, as linhas de produção corriam o risco de parar, efeito do desinteresse da população local – focada em melhores empregos – em desempenhar atividades pesadas e menos rentáveis.

— Enfrentávamos uma carência enorme de mão de obra. Ficamos sabendo que a Massas Romena (em Gravataí) havia contratado haitianos. Fomos até Brasileia (no Acre) e trouxemos 50 haitianos em outubro de 2012 — conta Sandra Simonis Lucca, supervisora
de Pessoal da Dália Alimentos, em Encantado.

— Em fevereiro de 2013, voltamos a Brasileia e trouxemos mais 75 haitianos e alguns dominicanos. A partir daí, eles começaram a fazer contatos com outros compatriotas, que foram se candidatando a vagas de emprego. Atualmente, a empresa conta com 321 estrangeiros no frigorífico de Encantado — 30% do total de funcionários.

Após a chegada de milhares de estrangeiros, as vagas de emprego no interior diminuíram. O indiano Prem Abhilash Kapil, 55 anos, sentiu na pele o efeito. Ele veio ao Brasil por indicação de amigos, mas passou cinco meses desempregado. Depois de muita insistência, há pouco mais de 30 dias foi admitido em uma obra da construtora Zagonel, em Lajeado, onde vive em uma casa com outros três compatriotas. Está mais aliviado.

— O Brasil é bom para ganhar dinheiro. Estou feliz, meu único problema é a língua — diz Kapil, que tenta, muitas vezes em vão, se comunicar em inglês com a população do Vale do Taquari.

Com a desaceleração da indústria, a expectativa dos setores produtivos é de que, em breve, os estrangeiros estarão trabalhado nas colheitas da maçã, do fumo e da uva. São setores em que a mão de obra também é escassa. Sem as alternativas de colocação no emprego, o risco é criar uma disputa entre brasileiros e imigrantes, o que já mostrou efeitos nefastos em outros países, como as escaladas de xenofobia na Europa.

A nova migração é um movimento recente, mas suficientemente forte para causar modificações econômicas, étnicas e culturais no interior gaúcho. Em Encantado, os 400 estrangeiros representam cerca de 2% dos 20 mil habitantes locais. O município já comemora, em maio, o Dia da Bandeira Haitiana.



SENEGALESES REZAM A MAOMÉ EM FÁBRICA DE MÓVEIS

O ritual se repete cinco vezes ao dia na fábrica de móveis Saccaro, em Caxias. Um por vez, os senegaleses se dirigem ao banheiro e começam a lavar mãos e pés, nas pias. É a purificação antes do encontro com os ensinamentos do Profeta, como chamam Maomé. Então, em fila, se ajoelham sobre um tapete verde (que eles chamam de “a July”) ornamentado com a figura de uma mesquita e começam a rezar. Baixinho, em wolof, principal idioma dos países da África Ocidental.

— Alahu Akbar (Alá seja Louvado) — recitam, misturando o árabe ao dialeto senegalês.

Os murmúrios vão crescendo, deixando escorrer entre os dedos as contas da masbaha, equivalente muçulmano a um rosário católico. Pedem perdão pelos pecados, sob olhar curioso — e respeitoso — dos colegas brasileiros.

Mesmo os não fundamentalistas rezam cinco vezes ao dia. E respeitam o Ramadã, mês no qual só podem se alimentar à noite. No primeiro dia de agosto, quebraram o jejum com um farto “Almoço da Família”: carne de gado com batata e arroz, tudo apimentado.

Tirando a falta que sentem da família, os senegaleses são só elogios ao Brasil. Há recíproca.

— Eles têm muita facilidade para o trabalho, são honestos, disciplinados e não reclamam. Aprendem rápido, inclusive o idioma — diz a gerente de Relações Humanas da Saccaro, Ana Paula De Zorzi Caon.

São 15 na fábrica, todos homens: dois costureiros, um contador, um pintor e os demais,
marceneiros. Yakhia Ba, o líder, costuma usar vestes tribais ou o fez (gorro muçulmano). Alguns faziam, no Senegal, faculdade na área de exatas, mas agora têm de lutar para sobreviver. Ganham bem, para o padrão africano.

Modu Kurabu era comerciante em Dakar, com os pais. Nunca vendia o suficiente para sustentar mulher e dois filhos. Agora recebe R$ 1,3 mil, gasta R$ 500 e manda o resto para
casa. Vários nem conhecem os filhos: as mulheres estavam grávidas quando eles migraram
para o Brasil. Matam saudade via skype: todos têm computadores conectados à África.


Wakhou está há um ano e meio trabalhando na Saccaro
FOTO: DIEGO VARA

CARIBENHOS SÃO PROTEGIDOS POR IGREJA

Passaram-se quase 150 anos, mas a história, ainda que com distinções e peculiaridades, se repete. Em 1882, chegaram a Encantado, distante 149 quilômetros de Porto Alegre, os primeiros imigrantes italianos. Os descendentes desses viajantes formaram famílias, se
espalharam pelo território e, hoje, são absoluta maioria na cidade, com domínio sobre a cultura, a política e a economia.

A primeira criança gerada pelos italianos em Encantado foi Maria Bratti. Já falecida, ela é avó de Ivonete Teixeira, 61 anos, que hoje dedica sua vida ao Centro de Evangelização João Batista Scalabrini, ligado à Paróquia São Pedro, responsável por acolher as centenas de haitianos, dominicanos e senegaleses que desembarcaram na cidade nos últimos três anos, com frio, sem emprego ou lugar para dormir.

No vácuo do Estado, a Igreja assumiu a vanguarda solidária. A história da congregação scalabriniana, assim como a da família de Ivonete, traça um paralelo entre passado e presente. Era 1887 quando o padre italiano João Batista Scalabrini, preocupado com os viajantes do país que partiam rumo a outras regiões do mundo sem dinheiro, emprego e teto, além do desconhecimento da língua local, resolveu fundar a congregação com o objetivo de prestar caridade aos imigrantes.

No linguajar religioso, esse é o “carisma” da entidade. A congregação chegou a Encantado em abril de 1896, com a inauguração da Paróquia São Pedro, a primeira igreja scalabriniana do Rio Grande do Sul. E até hoje permanece atuante no município, sendo a única de Encantado. Depois de amparar os italianos, os scalabrinianos atravessaram mais
de cem anos de espera para acolher os imigrantes negros da África e da América Central. Um paralelo histórico que suscita temas como o racismo e a xenofobia.

— No início, tínhamos preocupação com a receptividade porque o italiano, em geral, é racista. Mas quase não tivemos problemas. Usamos o histórico a nosso favor. Dissemos que somos uma comunidade que nasceu da imigração. Por isso, entendemos que o mais justo
era receber bem esses novos imigrantes — conta Ivonete, voluntária scalabriniana.


Ivonete virou “mãe” dos imigrantes, a quem defendeu de discursos xenófobos
FOTO: DIEGO VARA

GANESES ACAMPAM EM SEMINÁRIO

Para quem ficou dormindo em banco duro de rodoviária, atordoado pelo ruído dos veículos, passando frio e fome, o seminário Nossa Senhora Aparecida, em Caxias do Sul, lembra um paraíso. O prédio em pedra, envolto por flores e pomares, abrigava até 10 dias atrás 90 ganeses que migraram para o Sul durante a Copa do Mundo, sem passagem de volta nem ingresso para os jogos. São parte de uma leva de 380 que escolheu a Serra gaúcha como ponto de partida na busca de emprego.

Permaneceram no Brasil 1.132 ganeses dos 2.529 que vieram com visto de turista para a Copa. Os primeiros conseguiram emprego rápido. Os retardatários aguardam ofertas. A rede de solidariedade católica garantiu a eles hospedagem em Caxias, comida e busca por colocação no mercado de trabalho. Daqueles 90, uns 20 são cristãos e os demais, muçulmanos. Passavam o dia atormentados pelo frio serrano, usando blusões recém-doados pelos fiéis da paróquia, sequiosos pelos raios de sol que iluminam o pátio interno do seminário. Lavavam as próprias roupas, cozinhavam basicamente, frango com arroz, muito condimentado — e comiam bergamotas nos intervalos. Dormiam junto ao refeitório, em colchões.

— São tão honestos e tímidos que tenho de insistir para que peguem frutas no pomar, façam
suco. Delimitamos um perímetro para usarem e eles não ultrapassam. E vêm com uma habilidade a mais em relação aos brasileiros: falam o idioma inglês — descreveu o administrador do seminário, padre Edmundo Marcon.

Em cadeiras dispostas em círculos ao ar livre, os ganeses recebiam lições de português de duas voluntárias, a estudante de Relações Internacionais Juliana Camelo e a publicitária Márcia Pessoa. As duas aproveitaram para praticar o inglês com os africanos.

— Também tomei conhecimento da culinária e da música deles. Muito legal, quero um intercâmbio para conhecer o país deles — entusiasmou-se Juliana.

Há semanas, emissários do frigorífico Nicolini, de Nova Araçá, vieram buscar 30 ganeses no seminário e perguntaram como fariam para levar os pertences dos migrantes. De imediato, todos embrulharam as roupas em sacolas e estavam prontos: possuem apenas algumas roupas, celulares e nada mais.

Mustafah Ibraim é um deles. Ex-jogador de futebol, sofreu um acidente de carro e ficou impossibilitado de jogar. Passou fome na procura por emprego em Gana. Decidiu migrar. Com ajuda dos pais, juntou dinheiro, voou até o Marrocos e veio parar em Caxias, viajando de cidade em cidade, acampando. Não tem dúvidas de que o Brasil “é o melhor país do mundo”.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Imigração no Brasil


Imigração no Brasil


A marca da imigração no Brasil pode ser percebida especialmente na cultura e na economia das duas mais ricas regiões brasileiras: Sudeste e Sul.
A colonização foi o objetivo inicial da imigração no Brasil, visando ao povoamento e à exploração da terra por meio de atividades agrárias. A criação das colônias estimulou o trabalho rural. Deve-se aos imigrantes a implantação de novas e melhores técnicas agrícolas, como a rotação de culturas, assim como o hábito de consumir mais legumes e verduras. A influência cultural do imigrante também é notável.

História

A imigração teve início no Brasil a partir de 1530, quando começou a estabelecer-se um sistema relativamente organizado de ocupação e exploração da nova terra. A tendência acentuou-se a partir de 1534, quando o território foi dividido em capitanias hereditárias e se formaram núcleos sociais importantes em São Vicente e Pernambuco. Foi um movimento ao mesmo tempo colonizador e povoador, pois contribuiu para formar a população que se tornaria brasileira, sobretudo num processo de miscigenação que incorporou portugueses, negros e indígenas.

Imigração portuguesa

A criação do governo-geral em 1549 atraiu muitos portugueses para a Bahia. A partir de então, a migração tornou-se mais constante. O movimento de portugueses para o Brasil foi relativamente pequeno no século XVI, mas cresceu durante os cem anos seguintes e atingiu cifras expressivas no século XVIII. Embora o Brasil fosse, no período, um domínio de Portugal, esse processo tinha, na realidade, sentido de imigração.
A descoberta de minas de ouro e de diamantes em Minas Gerais foi o grande fator de atração migratória. Calcula-se que nos primeiros cinquenta anos do século XVIII entraram só em Minas, mais de 900.000 pessoas. No mesmo século, registra-se outro movimento migratório: o de açorianos para Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Amazônia, estados em que fundaram núcleos que mais tarde se tornaram cidades prósperas.

Os colonos, nos primeiros tempos, estabeleceram contato com uma população indígena em constante nomadismo. Os portugueses, embora possuidores de conhecimentos técnicos mais avançados, tiveram que aceitar numerosos valores indígenas indispensáveis à adaptação ao novo meio. O legado indígena tornou-se um elemento da formação do brasileiro. A nova cultura incorporou o banho de rio, o uso da mandioca na alimentação, cestos de fibras vegetais e um numeroso vocabulário nativo, principalmente tupi, associado às coisas da terra: na toponímia, nos vegetais e na fauna, por exemplo. As populações indígenas não participaram inteiramente, porém, do processo de agricultura sedentária implantado, pois seu padrão de economia envolvia a constante mudança de um lugar para outro. Daí haver o colono recorrido à mão de obra africana.

Elemento africano

Surgiu assim o terceiro grupo importante que participaria da formação da população brasileira: o negro africano. É impossível precisar o número de escravos trazidos durante o período do tráfico negreiro, do século XVI ao XIX, mas admite-se que foram de cinco a seis milhões. O negro africano contribuiu para o desenvolvimento populacional e econômico do Brasil e tornou-se, pela mestiçagem, parte inseparável de seu povo. Os africanos espalharam-se por todo o território brasileiro, em engenhos de açúcar, fazendas de criação, arraiais de mineração, sítios extrativos, plantações de algodão, fazendas de café e áreas urbanas. Sua presença projetou-se em toda a formação humana e cultural do Brasil com técnicas de trabalho, música e danças, práticas religiosas, alimentação e vestimentas.

Espanhóis, franceses, judeus

A entrada de estrangeiros no Brasil era proibida pela legislação portuguesa no período colonial, mas isso não impediu que chegassem espanhóis entre 1580 e 1640, quando as duas coroas estiveram unidas; judeus (originários, sobretudo da península ibérica), ingleses, franceses e holandeses. Esporadicamente, viajavam para o Brasil cientistas, missionários, navegantes e piratas ingleses, italianos ou alemães.

Imigração no século XIX

A imigração propriamente dita verificou-se a partir de 1808, vésperas da independência, quando instalou-se um permanente fluxo de europeus para o Brasil, que se acentuou com a fundação da colônia de Nova Friburgo, na província do Rio de Janeiro, em 1818, e a de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, em 1824. Dois mil suíços e mil alemães radicaram-se no Brasil nessa época, incentivados pela abertura dos portos às nações amigas. Outras tentativas de assentar irlandeses e alemães, especialmente no Nordeste, fracassaram completamente. Apesar de autorizada a concessão de terras a estrangeiros, o latifúndio impedia a implantação da pequena propriedade rural e a escravidão obstaculizava o trabalho livre assalariado.
Na caracterização do processo de imigração no Brasil encontram-se três períodos que correspondem respectivamente ao auge, ao declínio e à extinção da escravidão.

O primeiro período vai de 1808, quando era livre a importação de africanos, até 1850, quando decretou-se a proibição do tráfico. De 1850 a 1888, o segundo período é marcado por medidas progressivas de extinção da escravatura (Lei do Ventre Livre, Lei dos Sexagenários, alforrias e, finalmente, a Lei Áurea), em decorrência do que as correntes migratórias passaram a se dirigir para o Brasil, sobretudo para as áreas onde era menos importante o braço escravo. O terceiro período, que durou até meados do século XX, começou em 1888, quando, extinta a escravidão, o trabalho livre ganhou expressão social e a imigração cresceu notavelmente, de preferência para o Sul, mas também em São Paulo, onde até então a lavoura cafeeira se baseava no trabalho escravo.
Após a abolição, em apenas dez anos (de 1890 a 1900) entraram no Brasil mais de 1,4 milhão de imigrantes, o dobro do número de entradas nos oitenta anos anteriores (1808-1888).

Acentua-se também a diversificação por nacionalidades das correntes migratórias, fato que já ocorria nos últimos anos do período anterior. No século XX, o fluxo migratório apresentou irregularidades, em decorrência de fatores externos -- as duas guerras mundiais, a recuperação europeia no pós-guerra, a crise nipônica -- e, igualmente, devido a fatores internos. No começo do século XX, por exemplo, assinalou-se em São Paulo uma saída de imigrantes, sobretudo italianos, para a Argentina. Na mesma época verifica-se o início da imigração nipônica, que alcançaria, em cinquenta anos, grande significação. No recenseamento de 1950, os japoneses constituíam a quarta colônia no Brasil em número de imigrantes, com 10,6% dos estrangeiros recenseados.

Distribuição do imigrante

Distinguem-se dois tipos de distribuição do imigrante no país, com efeitos nos processos de assimilação. Pode-se chamar o primeiro tipo de "concentração", em que os imigrantes se localizam em colônias, como no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Nesse caso, os imigrantes não mantêm contato, nos primeiros tempos, com os nacionais, mas a aproximação ocorre à medida que a colonização cresce e surge a necessidade de comercialização dos produtos da colônia. O segundo tipo, que se pode chamar de "dispersão", ocorreu nas fazendas de café de São Paulo e nas cidades, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo.

Nessas áreas, o imigrante, desde a chegada, mantinha-se em contato com a população nacional, o que facilitava sua assimilação.
Os principais grupos de imigrantes no Brasil são portugueses, italianos, espanhóis, alemães e japoneses, que representam mais de oitenta por cento do total. Até o fim do século XX, os portugueses aparecem como grupo dominante, com mais de trinta por cento, o que é natural, dada sua afinidade com a população brasileira. São os italianos, em seguida, o grupo que tem maior participação no processo migratório, com quase trinta por cento do total, concentrados, sobretudo no estado de São Paulo, onde se encontra a maior colônia italiana do país. Seguem-se os espanhóis, com mais de dez por cento, os alemães, com mais de cinco, e os japoneses, com quase cinco por cento do total de imigrantes.

Contribuição do imigrante

No processo de urbanização, assinala-se a contribuição do imigrante, ora com a transformação de antigos núcleos em cidades (São Leopoldo, Novo Hamburgo, Caxias, Farroupilha, Itajaí, Brusque, Joinville, Santa Felicidade etc.), ora com sua presença em atividades urbanas de comércio ou de serviços, com a venda ambulante, nas ruas, como se deu em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Outras colônias fundadas em vários pontos do Brasil ao longo do século XIX se transformaram em importantes centros urbanos. É o caso de Holambra SP, criada pelos holandeses; de Blumenau SC, estabelecida por imigrantes alemães liderados pelo médico Hermann Blumenau; e de Americana SP, originalmente formada por confederados emigrados do sul dos Estados Unidos em consequência da guerra de secessão. Imigrantes alemães se radicaram também em Minas Gerais, nos atuais municípios de Teófilo Otoni e Juiz de Fora, e no Espírito Santo, onde hoje é o município de Santa Teresa.
Em todas as colônias, ressalta igualmente o papel desempenhado pelo imigrante como introdutor de técnicas e atividades que se difundiram em torno das colônias. Ao imigrante devem-se ainda outras contribuições em diferentes setores da atividade brasileira.

Uma das mais significativas apresenta-se no processo de industrialização dos estados da região Sul do país, onde o artesanato rural nas colônias cresceu até transformar-se em pequena ou média indústria. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, imigrantes enriquecidos contribuíram com a aplicação de capitais nos setores produtivos.
A contribuição dos portugueses merece destaque especial, pois sua presença constante assegurou a continuidade de valores que foram básicos na formação da cultura brasileira.

Os franceses influíram nas artes, literatura, educação e nos hábitos sociais, além dos jogos hoje incorporados à lúdica infantil. Especialmente em São Paulo, é grande a influência dos italianos na arquitetura. A eles também se deve uma pronunciada influência na culinária e nos costumes, estes traduzidos por uma herança na área religiosa, musical e recreativa.
Os alemães contribuíram na indústria com várias atividades e, na agricultura, trouxeram o cultivo do centeio e da alfafa. Os japoneses trouxeram a soja, bem como a cultura e o uso de legumes e verduras. Os libaneses e outros árabes divulgaram no Brasil sua rica culinária.